Módulo 59

 BRINCAR 



FREUD E O BRINCAR


BRINCAR EM ESCRITORES CRIATIVOS E DEVANEIO

 

         Esse artigo se origina de uma conferência proferida (por Freud) em 6 de dezembro de 1907. Toda criança brincando se comporta como um escritor criativo, pois cria um mundo próprio ou rearranja os elementos de seu mundo de uma maneira nova que lhe agrade. O oposto de brincar não é o que é sério, mas sim o que é real. O escritor faz o mesmo que a criança que brinca: ele cria um mundo de fantasia, o qual leva muito a sério. Quando crescem, as pessoas param de brincar e parecem renunciar ao prazer que obtinham na brincadeira. Mas a criança em crescimento quando para de brincar não renuncia a nada, apenas abdica do elo com os objetos reais: em vez de brincar ela passa a fantasiar. As fantasias das pessoas são mais difíceis de se observar do que as brincadeiras das crianças. O adulto tem vergonha de suas fantasias e as esconde dos outros. A brincadeira das crianças é determinada por desejos: por um único desejo, que ajuda seu desenvolvimento, o desejo de crescer e ser adulto. A força motivadora das fantasias são desejos não satisfeitos e toda fantasia é a realização de um desejo, a correção de uma realidade insatisfatória. Uma experiência forte do presente desperta no escritor a lembrança de uma experiência anterior, da qual se origina um desejo que encontra realização no trabalho criativo. A própria obra exibe elementos da ocasião recente e da lembrança antiga.

QUINODOZ, Jean-Michel. Ler Freud: guia de leitura da obra de S. Freud. Porto Alegre: Artmed, 2007. p. 124.

 

         A conferência intitulada Escritores criativos e devaneio foi proferida por Freud em casa do editor Hugo Heller e só veio a ser publicada em 1908. Trata-se de um artigo particularmente importante. (...) O caráter condensado e teórico do texto constitui aqui um resumo de teses que Freud ilustra em outros trabalhos.

         Encontra-se aí, em primeiro lugar, a ideia que Donald Winnicott retomará do vínculo entre o jogo infantil e a criação, neste caso literária. O jogo é definido como um “devaneio” e prolonga-se na adolescência nas “fantasias”. As duas coisas pertencem à categoria mais geral da atividade fantasística, resultante de desejos insatisfeitos. A ligação com a criação literária realiza-se através da literatura popular, a qual apresenta os seus heróis sempre vitoriosos após superarem diversas tribulações. O prazer de ler vê-se definido, portanto, em sua essência narcísica: o herói é sempre “Sua Majestade, o Eu”, e o romance “psicológico” se difere, a esse respeito, do romance de aventuras pelo fato de o Eu estar cindido em “Eus parciais” em conflito. (...)

         A capacidade criadora do romancista apoia-se, por sua parte, nas ressonâncias de (...) acontecimentos atuais e fontes provenientes de (...) sua memória infantil (...). O criador faz o leitor participar do seu mundo de fantasia graças à sua técnica formal[1], que ele exibe e oferece ao leitor um benefício de prazer. Este liberta uma fonte mais profunda, permitindo ao leitor “usufruir suas fantasias sem escrúpulos e sem pudor”.

MIJOLLA, Alain de. Dicionário internacional de psicanálise. Vol. I Rio de Janeiro: Imago, 2005. Verbete: Escritores criativos e devaneio. p. 591.



[1] A “forma estética” criada pelo talento do criador transforma a amoralidade pulsional da sua fantasia pessoal em objeto artístico capaz de ser contemplado com prazer por muitos.


A BRINCADEIRA DO “PEQUENO HANS” COM O CAVALO

 

         O “pequeno Hans” (...) recusava-se a sair de casa e ir à rua, com medo de ser mordido por um cavalo. O artigo (Análise de uma fobia em um menino de cinco anos) consiste no relato do desenvolvimento, perlaboração e dissolução parcial dos conflitos neuróticos que estavam na origem deste sintoma fóbico. (...)

         Este artigo, publicado em 1909, foi o primeiro estudo de caso cujo material clínico, proveniente do tratamento de uma criança, serviu de suporte às teorias freudianas da sexualidade infantil. Este tratamento, pouco ortodoxo, foi efetuado pelo próprio pai da criança sob o controle de Freud, essencialmente por correspondência. (...)

         O pai de Hans, Max Graf, (...) conhecia Freud de longa data. Sua mulher, a mãe de Hans, tinha estado em análise na residência de Freud, e ele próprio participava das reuniões da sociedade às quartas-feiras[1]. (...)

A explicação que nos dá Freud sobre a origem da fobia do “pequeno Hans” é a seguinte: o sintoma fóbico, a saber, que um cavalo morde ou o faz cair, era uma formação de compromisso que se desenvolvera a fim de resolver o conflito edipiano, contra o qual ele tentava debater-se. O apego sexual de Hans a sua mãe e os sentimentos ambivalentes em relação ao pai, que ele amava profundamente mas se lhe atravessava no caminho, na medida em que era um rival em face da mãe, tinham desencadeado a angústia de castração e o medo de ser castigado, simultaneamente com sentimentos de culpa e recalque. O nascimento da irmã tinha aumentado o conflito, pois também ela se tornava uma rival em face do amor e da atenção materna. Hans foi capaz de exprimir abertamente seus desejos de morte em relação à irmã, mas o recalque de suas pulsões agressivas em face do pai aumentou a angústia da castração e forçou-o – graças aos mecanismos de deslocamento e exteriorização – a criar um objeto fóbico evitável. De tal sorte que o conflito interno de Hans transformava-se em perigo externo que ele só podia evitar fugindo. Tornava-se desde logo capaz de furtar-se a uma angústia ainda maior, a da castração. O desenvolvimento do sintoma fóbico tinha por função restaurar o equilíbrio psíquico de Hans[2].

MIJOLLA, Alain de. Dicionário internacional de psicanálise. Vol. I Rio de Janeiro: Imago, 2005. Verbete: Análise de uma fobia em um menino de cinco anos (O caso do pequeno Hans) p. 106.

 

Devemos reconhecer especialmente um resultado muito importante do exame ao qual o menino foi submetido por seu pai. Aprendemos qual foi a causa imediata que precipitou a irrupção da fobia. Ocorreu quando o menino viu cair um cavalo grande e pesado; e pelo menos uma das interpretações dessa impressão parece ser aquela à qual seu pai deu ênfase, ou seja, que Hans naquele momento percebeu um desejo de que seu pai caísse daquele mesmo modo… e morresse. A expressão de seriedade que assumiu ao contar o episódio referia-se, sem dúvida, a esse significado inconsciente. Será que existiria ainda outro significado oculto atrás disso tudo? Além disso, qual pode ter sido a significação de o cavalo fazer um grande barulho com as pernas?

‘Durante algum tempo, Hans tem brincado de cavalo, no quarto; ele trota, deixa-se cair, esperneia com os pés e relincha. Certa vez prendeu no rosto um saquinho, parecido com a sacola de focinheira dos cavalos. Repetidamente, vem correndo até mim e me morde.’[3]

Desse modo, ele aceitava as últimas interpretações[4] com mais determinação do que lhe era possível fazer com palavras, mas naturalmente mediante uma troca de papéis, de vez que o jogo se desenrolava em obediência a uma fantasia plena de desejo. Por conseguinte, ele era o cavalo, e mordia seu pai; assim, ele se identificava com seu pai.[5]

‘Nesses dois últimos dias notei que Hans me tem desafiado de uma maneira bem decidida, não com maus modos, mas com muita animação. Será porque já não tem mais medo de mim - o cavalo?’[6]

FREUD, Sigmund. Análise de uma fobia em um menino de cinco anos.  In: Edição Standard Brasileira das Obras psicológicas Completas de Sigmund Freud. Volume X. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 53.



[1] A Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras foi o primeiro grupo de estudos organizado por  Freud a partir de 1902, em Viena, marcando o início do movimento psicanalítico. Max Graf, portanto, estava diretamente comprometido com as ideias psicanalíticas e, de uma certa perspectiva, com uma supervisão direta de Freud, pode ser considerado o primeiro analista de crianças.

[2] Portanto, o cavalo que Hans teme é, por deslocamento, o próprio pai; e a mordida, também por deslocamento, a castração.

[3] Palavras de Max Graf sobre seu filho, escritas a Freud.

[4] Freud e o pai lhe sugeriram que o cavalo do qual tinha medo era o seu próprio pai.

[5] Hans se permite brincar como se fosse um cavalo mordendo o pai, invertendo os papéis da fantasia geradora da fobia, depois da interpretação que lhe é oferecida por Max Graf a partir da orientação de Freud.

[6] Comentário do pai a Freud, mostrando uma mudança de comportamento que parecia ter sucedido a interpretação. Os sintomas fóbicos, contudo, ainda persistiriam por algum tempo, embora em constante diminuição, como em um processo de perlaboração.


A BRINCADEIRA DO FORT-DA

 

         Fort e da são exclamações ouvidas por Freud durante uma brincadeira de seu neto Ernst; interpretadas como longe/aqui, tornaram-se clássicas para designar os primeiros comportamentos de repetição na infância, assim como os processos primários fundadores utilizados para esse fim.

         Quando se fala de Fort-da em psicanálise, alude-se ao segundo capítulo de Além do princípio de prazer (1920), onde se encontra descrita e interpretada em algumas páginas célebres uma brincadeira do pequeno Ernest, que estava então com dezoito meses de idade. Freud aborda nessa época o difícil problema da compulsão de repetição na neurose traumática, e se realiza uma digressão pela experiência infantil é para melhor problematizar a questão. “Esse bom menininho”, sem sintoma notável, de índole bem tranquila, suportando sem choro as ausências da mãe, “tinha, contudo, o hábito ocasional e perturbador de apanhar quaisquer objetos que pudesse agarrar e atirá-los para um canto, sob a cama (...) pronunciava então um longo e arrastado ‘oooó’, acompanhado por uma expressão de interesse e satisfação. Sua mãe e o autor do presente relato concordaram em achar que isso não constituía uma simples interjeição, mas representava a palavra alemã “fort” (longe)”. Um pouco mais tarde, observa a mesma criança utilizando desta vez um carretel preso a um barbante; joga o carretel para longe e o puxa de volta, saudando o seu reaparecimento com um alegra “da” (aqui). Por último, constata que a criança utiliza, por vezes, o mesmo ‘oooó’ em relação a ela própria, em particular quando se faz desaparecer acocorando-se mais baixo que o espelho onde vê sua imagem refletida. Freud sublinha que o jogo do “fort” propriamente dito basta a si mesmo por muito tempo e que “a criança reproduz essa cena com muito maior frequência que a do reaparecimento e à margem dela”.

         Trata-se-á de um modo de dominar uma impressão penosa, reproduzindo-a ela mesma de modo ativo, como se observa em tantas brincadeiras em que a criança faz “o doutor”, por exemplo? Ou será que se vinga literalmente do tratamento que lhe é infligido, transferindo-o para o outro? No total, pouco importa: o problema apresentado é o da contradição que se afirma muito precocemente entre a compulsão para a repetição e o princípio do prazer. Donde vem que ela encontra satisfação em repetir ações que foram causas de insatisfação?

         O primeiro interesse dessa análise reside em que se encontra aí resumido e condensado o percurso ulterior de Freud a propósito da compulsão de repetição. Esses primeiros jogos infantis constituem um dos processos fundamentais do psiquismo, com suas  duas faces enigmáticas: uma em que se afirmam “misteriosas tendências masoquistas” que resistem a todas as tentativas de análise; a outra em que se manifesta uma violência primordial irredutível, e que se revela particularmente virulenta num dos momentos do mencionado exemplo, quando o pequeno Ernst, com trinta meses, arremessa para longe um brinquedo, associando-o a seu pai mandado para a frente de batalha.

         O jogo do “Fort-Da” inspirou numerosos autores que viram aí o reconhecimento das estruturas fundamentais do psiquismo infantil, com acentos diferentes segundo as tendências ou escolas. Melanie Klein e Donald Winnicott extraíram dele numerosos ensinamentos para esclarecer as origens do psiquismo infantil e aprimorar as técnicas de jogo nas terapias de criança. Para Jacques Lacan, esse jogo manifesta o ingresso da criança na ordem simbólica, ela joga com o aparecimento e desaparecimento da coisa para a colocar no lugar de significantes fundamentais. (...)

         O que não foi suficientemente sublinhado é que o artigo de Freud coloca alternativamente o acento sobre dois jogos sucessivos que se afirmam em épocas diferentes: o primeiro, quando a criança tem dezoito meses, o do “fort”, do lançar para longe, com o “oooó” que o acompanha, assinala o prazer que ela sente ao fazer desaparecer o outro, em fazer-se desaparecer, prazer que permite suportar a ausência e traduz bem a violência de que ela se reveste; este jogo persiste, pois ainda está vigorando quando a criança desfruta da partida de seu pai para a guerra trinta meses depois. O segundo jogo está baseado no desaparecimento e reaparecimento, e manifesta um outro prazer muito diverso sentido pela criança quando vê ressurgir do nada o que ela acreditava ter desaparecido para sempre, e descobre assim a possibilidade de uma permanência, de uma continuidade, algo que constitui um fundamento necessário à introjeção e à elaboração tanto do simbólico quanto do imaginário. Tanto quanto o primeiro jogo resulta da repetição mortífera se não está associado a mais nada, o segundo remete para uma repetição construtiva e entra num processo de ligação e de tradução.

         Portanto, é o jogo do “fort” o que envolve mais indagações, na medida em que o sujeito descobre no desaparecimento do outro ou de si mesmo um gozo inconsciente que colide com as interdições mais fundamentais. Levando em conta a sua crença na onipotência do pensamento, a criança só pode conceber a morte ou o desaparecimento como o efeito de um desejo; ora, é a visão ou a desaparição que lhe permitem obter uma ideia dele; portanto, ele as vincula ao exercício do desejo visual, através do qual o trauma pode converter-se em prazer, um prazer proibido. Em seu relato do “Fort-da”, Freud dá a entender que esse jogo foi benéfico, visto que, se isso não lhe tinha evitado sentir-se muito ciumento por ocasião do nascimento seguinte, Ernst pudera, apesar de tudo, suportar bem a morte de sua mãe, ocorrida pouco tempo depois. E na análise do “sonho de morte de pessoas queridas”, Freud assinala que isso não impede que, uma vez chegado à idade adulta, quando a criança percebe verdadeiramente o que é a morte, sobrevenha a posteriori uma angústia de culpa que se encontra em numerosos neuróticos.

MIJOLLA, Alain de. Dicionário internacional de psicanálise. Vol. I Rio de Janeiro: Imago, 2005. Verbete: Fort-da. p. 747 e 748.




WINNICOTT E O BRINCAR


Em 1971, Winnicott publicou Playing and Reality (O brincar e a realidade), no qual, dando continuidade a suas ideias relativas ao brincar, aos brinquedos, às brincadeiras e aos jogos das crianças, em diversos capítulos, enfatiza que brincar:

1. “representa um portão de entrada para o inconsciente”;

2. é essencialmente criativo;

3. através do faz-de-conta, funciona como um estímulo para elaborar a fase de transição das fantasias do mundo subjetivo para a realidade do mundo objetivo;

4. representa uma forma de desfazer a fase em que ainda há fusão com a mãe;

5. é uma forma da criança elaborar suas fantasias inconscientes.

         É útil ressaltar que o aspecto sadio de saber brincar acompanha os adultos a vida inteira e pode representar um excelente atributo para o psicanalista.

ZIMERMAN, David E. Vocabulário contemporâneo de psicanálise. Porto Alegre: Artmed, 2001. p. 58.

 

O brincar apresenta-se como uma grande aquisição da teoria do desenvolvimento emocional de Winnicott. Ao brincar, o bebê/criança/adulto estabelece uma ponte entre o mundo interno e o mundo externo com e através do espaço transicional. Para Winnicott, a qualidade do brincar na terceira área - os fenômenos transicionais - é sinônimo de viver criativamente, e constitui a matriz da experiência de self[1] que se estende por toda a vida. Transposto para a relação analítica, o brincar constitui-se na definitiva realização da psicoterapia, pois é somente através do brincar que o self é descoberto e fortalecido. (...)

O “emprego de uma rica imaginação ao brincar” indica que a criança faz uso da terceira área, o que se constitui em um sinal de saúde.

Winnicott, estando mais envolvido com o brincar da criança e do adulto do que com o conteúdo deste brincar, destaca a forma com que o indivíduo emprega o brincar a fim de efetivar a vivência do self e, paralelamente, comunicar-se.

Segundo ele, a linguagem é meramente uma ampliação e uma extensão do brincar e da comunicação, sendo a capacidade de brincar tão relevante para o adulto quanto para a criança.

“O terapeuta esforça-se por alcançar a comunicação com a criança. Ele sabe que ela normalmente não possui um domínio da linguagem que possa abarcar todas as infinitas sutilezas que estão para ser descobertas no brincar por aqueles que as procuram... O que quer que diga a respeito do brincar das crianças também pode ser aplicado aos adultos, sendo a questão um pouco mais difícil de expor quando o material trazido pelo paciente surgir principalmente como uma comunicação verbal. Sugiro que devamos ter o brincar como algo manifesto, tanto na análise de adultos quanto em nosso trabalho com crianças. Isso evidencia-se, por exemplo, na escolha das palavras, na inflexão da voz e, é claro, no senso de humor.”

[Winnicott, A Theoretical Statement] (...).

O brincar implica a constituição de sentimentos agressivos tidos em relação ao ambiente — um ambiente que deve ser “tolerante” (...):

“Frequentemente afirmamos que as crianças ‘descarregam seu ódio e agressividade’ no brincar, como se a agressão fosse uma coisa nociva que pudesse ser jogada fora. Isto é em parte verdadeiro, pois os ressentimentos guardados por muito tempo e o produto da experiência de raiva podem parecer à criança algo nocivo que está dentro de si. Mas é mais importante expor essa mesma coisa dizendo que a criança valoriza a constatação de que o ódio e os impulsos agressivos podem ser manifestados em um ambiente já conhecido, sem que haja uma resposta de ódio ou violência por parte desse ambiente. A criança perceberá que um bom ambiente será capaz de tolerar os sentimentos agressivos se estes forem expressos de uma forma razoavelmente aceitável. Aceitamos que a agressão esteja presente na constituição da criança. Seria desleal se aquilo que faz parte dela fosse ocultado e negado.”

[Winnicott, Why Children Play] (...).

Da mesma forma que Freud entendia o sonhar como sendo o “nobre caminho que leva ao inconsciente”, Winnicott via o brincar como o “portão de entrada para o inconsciente”:

“O inconsciente reprimido (...) é algo sobre o qual todo indivíduo deseja saber. O brincar, assim como os sonhos, tem a função de uma auto-revelação.”

[Winnicott, Why Children Play] (...).

Winnicott acrescentou quatro observações (...) relativas ao brincar da criança e do adulto:

“1. O brincar é essencialmente criativo.

2. O brincar é sempre estimulante por lidar com o limite extremamente precário entre aquilo que é subjetivo e aquilo que pode ser objetivamente percebido.

3. O brincar se dá em um espaço potencial localizado entre o bebê e a figura materna. Este espaço potencial faz parte da mudança que tem que ser levada em consideração quando o bebê que está fundido à mãe sente que ela está se afastando.

4. O brincar desenvolve-se nesse espaço potencial a partir do momento em que o bebê experimenta a separação sem que ocorra uma separação, o que se torna possível porque o estado fusional com a mãe é substituído pela sua adaptação às necessidades do bebê. Em outras palavras, (...) o brincar está associado à experiência de vida do bebê que adquiriu confiança na figura materna.”

[Winnicott, Why Children Play] (...).

         Todos os aspectos do pensamento de Winnicott referentes ao ambiente facilitador e ao holding[2] são de extrema relevância aqui (...). Isso faz com que o bebê seja capaz de confiar no ambiente e, consequentemente, nas pessoas que o rodeiam.

“No estado de confiança que se desenvolve quando a mãe pode desempenhar bem essa difícil tarefa (mas não se ela for incapaz disso), o bebê começa a desfrutar de experiências fundadas em um ‘casamento’ da onipotência própria dos processos intrapsíquicos com o controle tido do que é real. A confiança na mãe cria aqui um playground intermediário, onde a ideia de mágico tem sua origem, já que o bebê, até certo ponto, experimenta a onipotência... Chamo isso de playground porque o brincar inicia-se aqui. O playground é um espaço potencial existente entre a mãe e o bebê que os une.”

[Winnicott, A Theoretical Statement] (...).

A essa altura Winnicott introduz um novo componente, a “precariedade” presente no brincar:

“O brincar é imensamente estimulante. Que seja bem entendido que não é estimulante primariamente porque as pulsões encontram-se envolvidas! O que gira em torno do brincar é sempre a precariedade do interjogo entre a realidade psíquica pessoal e a experiência de controlar os objetos reais. Esta é a precariedade da própria magia, magia essa que resulta da intimidade de uma relação que é descoberta como confiável. Para ser confiável a relação deve ser necessariamente motivada pelo amor materno, pelo seu amor-ódio, ou pela sua relação de objeto, e não por formações reativas.”

[Winnicott, A Theoretical Statement].

Essa magia é inspirada pela experiência tida pelo bebê da empatia de sua mãe através de sua comunicação e mutualidade - um sentimento de que “a mãe conhece mais”:

“O estágio seguinte é o de ficar só na presença de alguém. A partir dele a criança brinca baseada na suposição de que a pessoa que ama e que, portanto, é confiável e está disponível, permanece disponível quando é lembrada após ser esquecida. Essa pessoa é sentida como se refletisse aquilo que ocorre no brincar.”

[Winnicott, A Theoretical Statement].

A capacidade de estar só está fundada no paradoxo da experiência de estar só na presença do outro, em geral a mãe:

“Agora a criança está preparada para o estágio seguinte, que se constitui em permitir e ter prazer na sobreposição das duas áreas do brincar. Primeiramente, é evidente, é a mãe quem brinca com o bebê, tendo o cuidado de haver se adaptado às atividades lúdicas do bebê. Entretanto, mais cedo ou mais tarde, ela introduz o seu próprio brincar, descobrindo como o bebê oscila, segundo sua capacidade, entre aceitar ou não a introdução das ideias que lhe são estranhas. Dessa maneira, abre-se o caminho para um brincar em conjunto dentro de uma relação.”

[Winnicott, A Theoretical Statement] (...).

Para Winnicott a psicoterapia implica que duas pessoas brinquem em conjunto, duas pessoas capazes de usar o espaço potencial.

“A psicoterapia se dá pela sobreposição das duas áreas do brincar, a do paciente e a do terapeuta. A psicoterapia diz respeito a duas pessoas que brincam juntas. O corolário disso é que quando o brincar não se torna algo possível, o esforço do terapeuta volta-se para o resgate do paciente do estado de não ser capaz de brincar para um estado de ser capaz de brincar.”

[Winnicott, A Theoretical Statement].

Assim, Winnicott pinta com novas cores a relação terapêutica dentro da psicanálise, o que altera radicalmente, e sem atropelos, a síntese freudiana. Enquanto a interpretação freudiana enfatiza o analista como alguém que sabe algo sobre o inconsciente do paciente, Winnicott considera ter uma maior importância o brincar e a capacidade de brincar. Para ele, de fato, a psicanálise é uma “forma altamente especializada de brincar”:

“... o brincar é universal e faz parte da saúde: o brincar facilita o crescimento e, portanto, a saúde; o brincar origina as relações dentro de um grupo; o brincar pode ser um tipo de comunicação na psicoterapia; e, por último, a psicanálise desenvolveu-se como uma forma altamente especializada de brincar, que está a serviço da comunicação com si mesmo e com os outros. O brincar é algo natural. Já a psicanálise constitui-se em um fenômeno altamente sofisticado pertencente ao século XX. É de extrema importância para o analista sempre ter em mente não apenas aquilo que é devido a Freud, mas também o que devemos àquilo que é natural e universal, o brincar.”

[Winnicott, A Theoretical Statement].

Winnicott sugere ao terapeuta de crianças que o espaço de brincar apresenta-se como algo que possui uma maior importância do que a interpretação, precisamente porque favorece a criatividade infantil em lugar da habilidade do analista em interpretar.

“Meu propósito aqui é simplesmente fazer lembrar que o brincar das crianças abrange tudo, embora o psicoterapeuta trabalhe apenas com o material trazido, com o conteúdo do brincar. Naturalmente, no contexto profissional da sessão de uma hora, encontramos uma constelação mais precisa do que aquela que se apresentaria em uma experiência no chão de casa, onde o tempo não possui a mesma significação; no entanto, isso fornecerá um grande auxílio para a compreensão de nosso trabalho se soubermos que a base para aquilo que fazemos é o brincar do paciente, uma experiência criativa tomada no espaço e no tempo, que é intensamente real para ele. Esta observação também nos ajuda a compreender como a psicoterapia profunda pode ser levada a cabo na ausência do trabalho interpretativo (...).”

[Winnicott, A Theoretical Statement].

A tarefa do analista constitui-se em criar o espaço dentro do qual a criança ou o paciente possa ser capaz de descobrir algo por si próprio. Winnicott afirma que um grande perigo reside no fato de que as interpretações do analista podem acarretar ao paciente o desenvolvimento de um falso self, consequência de uma pseudo-análise:

“As interpretações feitas sem que haja um amadurecimento do material são doutrinação e produzem submissão. O que resulta daí é que a resistência surge da interpretação dada fora da área de sobreposição do brincar do paciente e do analista em conjunto. A interpretação feita quando o paciente não possui a capacidade de brincar é simplesmente inútil, ou então provoca equívocos. Quando existe um brincar mútuo, a interpretação, de acordo com os princípios psicanalíticos vigentes, pode fazer avançar o trabalho terapêutico. Esse brincar tem que ser espontâneo, e não submisso ou aquiescente, se quisermos levar a cabo uma psicoterapia.”

[Winnicott, A Theoretical Statement].

O gesto espontâneo origina-se a partir do verdadeiro self. O indivíduo capaz de espontaneidade, portanto, vive criativamente. (...)

         Winnicott enfoca qual é a forma de relação existente entre a subjetividade do bebê e sua luta para que consiga perceber objetivamente o mundo:

“Portanto, é desde o nascimento que o ser humano lida com o problema que é a relação entre o que é objetivamente percebido e aquilo que é subjetivamente concebido. Na solução deste problema a saúde ocupa um lugar importante para o ser humano que não teve uma iniciação suficientemente-boa pela mãe. A área intermediária à qual me refiro é a área que é oferecida ao bebê e que se localiza entre a criatividade primária e a percepção objetiva fundada no teste de realidade. Os fenômenos transicionais representam os primeiros estágios do uso da ilusão. Sem eles não existe qualquer significado para o ser humano na ideia de uma relação com um objeto que é percebido pelas outras pessoas como externo a esse ser.”

[Winnicott, Transicional Objects]. (...)

Winnicott estabelece o significado e o valor conferidos à experiência de onipotência do bebê ao parafrasear a mensagem da mãe dirigida ao bebê quando o objeto lhe é apresentado:

“É preciso dizer que o bebê cria o seio, mas não poderia fazê-lo se a mãe não estivesse ali e naquele momento. O que é comunicado ao bebê é: ‘Venha ao mundo criativamente. Crie o mundo. É apenas aquilo que você cria que tem significado para você’. Posteriormente é acrescentado: ‘Você controla o mundo’. A partir desta experiência de onipotência inicial o bebê torna-se capaz de poder experimentar a frustração e até mesmo de um dia chegar ao outro extremo da onipotência, ou seja, de adquirir um sentimento de ser uma gota d’água no oceano, um oceano que já existia antes mesmo dele ser concebido por pais que tinham prazer um com o outro. Não é sendo Deus que os seres humanos adquirem a humildade tão peculiar à individualidade humana?”

[Winnicott, Communication between Infant and Mother, and Mother and Iníant, Compared and Contrasted].

         Winnicott (...) dedicou-se ao que chamou de “experiência cultural”. (...) Em essência a experiência cultural tem suas raízes calcadas na relação precoce de separação do par mãe-bebê. Uma vez que o ambiente se apresenta como facilitador e suficientemente-bom o bebê terá a ilusão de “ser Deus”. A partir desta experiência ele passa a desenvolver e elaborar um processo de desilusão onde fica evidente que ele de fato não é Deus. A fim de auxiliá-lo na passagem da ilusão à desilusão, o bebê que é saudável ou a criança pequena irá fazer uso de um objeto transicional. Por isso a atitude adotada pelos pais em relação ao objeto transicional é de vital importância:

“Tenho afirmado que, ao observarmos o emprego que o bebê faz de um objeto transicional, a primeira possessão de um não-eu, o que estamos testemunhando é tanto o primeiro uso que a criança faz de um símbolo quanto a primeira experiência de brincar. Uma parte essencial de minha formulação dos fenômenos transicionais está em jamais propor o seguinte desafio ao bebê: ‘Foi você quem criou este objeto, ou ele caiu do céu?’ Isto é, uma característica essencial dos fenômenos e dos objetos transicionais repousa sobre a qualidade de nossas atitudes quando os observamos. O objeto é um símbolo da união do bebê e da mãe (ou parte dela). Este símbolo pode ser localizado. Ele situa-se em um lugar com características espaciais e temporais, onde e quando a mãe passa por uma transição do estar fundida (na mente do bebê) com a criança para o ser experimentada como um objeto a ser percebido em vez de ser concebido. O uso de um objeto simboliza a união de duas coisas que agora estão separadas, o bebê e a mãe, no ponto localizado no tempo e no espaço que é a origem de seu estado de separação.”

[Winnicott, Location of Cultural Experience] (...).

A ênfase na teoria da cultura de Winnicott é posta sobre a experiência subjetiva do bebê onde a mãe vem e vai, bem como na ideia que constrói de sua linguagem, em conjunção com suas tendências herdadas. Este último item refere-se a sua - do bebê - linguagem: em outras palavras, às características essenciais únicas de sua personalidade e temperamento. Os costumes vigentes, a linguagem e tudo aquilo que diz respeito a cada sociedade em particular tem sua origem nesta cultura precoce:

“Empreguei o termo ‘experiência cultural’ como uma ampliação da ideia de fenômeno transicional e de brincar, sem estar certo de que pudesse definir a palavra ‘cultura’. O acento, na verdade, é posto na experiência. Ao utilizar-me da palavra cultura estou pensando na tradição herdada. Estou pensando em algo que faz parte do patrimônio comum da humanidade, para o qual indivíduos e grupos podem oferecer sua contribuição, e do qual todos nós podemos usufruir se tivermos um lugar para colocar aquilo que encontramos. Aqui existe a necessidade de algum tipo de método de registro. Sem sombra de dúvida, muito foi perdido das antigas civilizações, mas, dos mitos, um produto da tradição oral, podemos dizer que eles são um patrimônio cultural que faz a história da cultura humana e que se estende por seis mil anos. Esta história passada através dos mitos permanece até hoje, a despeito dos esforços dos historiadores em serem objetivos, o que nunca alcançam, embora devam tentar.”

[Winnicott, Location of Cultural Experience].

Winnicott refere-se ao legado transmitido de uma geração à outra, o que não implica apenas alguns costumes e tradições de uma dada sociedade, mas implica também seus fundamentos simbólicos e emocionais. É evidente que cada família possui seus próprios mitos e histórias relativas ao contexto de cada sociedade e que, também, desempenham um importante papel na psique individual de cada bebê:

“... em nenhuma área cultural é possível ser original, a não ser baseando-se na tradição. Contrariamente, alguém que oferece alguma contribuição de caráter cultural nunca se repete, exceto deliberadamente. O plágio é um pecado imperdoável no terreno cultural. A interação entre a originalidade e a aceitação da tradição, entendida como a base da inventividade, me parece ser apenas mais um exemplo, mas um exemplo extraordinário, da interação entre separação e união.”

[Winnicott, Location of Cultural Experience].

Frequentemente Winnicott coloca em destaque a natureza da criatividade, vista a partir do viver, do estar vivo e do sentir-se real:

“... o que a vida é? É possível curarmos nosso paciente e não sabermos nada a respeito daquilo que o faz continuar vivendo. É-nos extremamente importante reconhecer abertamente que a ausência da doença psiconeurótica pode significar saúde, mas não vida. Os pacientes psicóticos que constantemente oscilam entre o viver e o não-viver obrigam-nos a encarar essa questão, questão essa que realmente é inerente não apenas aos psiconeuróticos, mas a todos os seres humanos. Afirmo que esses mesmos fenômenos que encarnam a vida e a morte para nossos pacientes esquizoides ou borderline surgem em nossas experiências culturais. São elas que operam a continuidade da raça humana, que transcendem a existência pessoal. Postulo que as experiências culturais estão em continuidade direta com o brincar, o brincar daqueles que ainda não ouviram falar em jogos.”

[Winnicott, Location of Cultural Experience].

O que se impõe na teoria elaborada por Winnicott da posição ocupada pela experiência cultural é a capacidade do sujeito de “lembrar-se” inconscientemente da proteção e da apresentação do objeto bom proporcionadas pela mãe em seus primeiros momentos de vida. Esta experiência é internalizada, vindo a criar meios que tornam possível o viver criativo. (...)

Da mesma forma que o brincar e o ser são abrangidos pela relação precoce mãe-bebê, o viver criativo também pertence a esse âmbito. Em um de seus últimos trabalhos, datado de 1970 e, portanto, pouco anterior a sua morte, Winnicott desenvolve mais extensamente os temas da criatividade e do viver criativo:

“Qualquer definição a que cheguemos deverá incluir a ideia de se a vida merece ser vivida ou não, de se a criatividade é parte integrante ou não da experiência de vida da pessoa. Para ser criativa uma pessoa deve existir e possuir o sentimento de existir, não de uma forma consciente, mas como algo básico a partir do qual pode operar. A criatividade é, então, o fazer que brota do ser. Isso indica que quem é, está vivo. O impulso pode estar em paz, mas quando a palavra ‘fazer’ ganha peso, é porque já existe a criatividade. A criatividade, então, é a retenção por toda a vida de algo que pertence exatamente à experiência do bebê: a capacidade de criar o mundo.”

[Winnicott, Living Creatively].

É a partir do sentimento de haver criado o mundo que se estabelece tudo aquilo que é verdadeiramente importante. A desilusão não é alcançada sem que primeiramente surja a ilusão, da mesma forma que o desmame não pode ocorrer sem que primeiro exista uma boa alimentação, ou o fazer antes mesmo de ser. O que funda o viver criativo é a apercepção criativa que, por sua vez, se funda na experiência de fusão com a mãe. E precisamente esta experiência de “retenção da mãe na mente” que evolui até chegar às lembranças, tornando-se o lugar por excelência da experiência cultural. E aqui que se dá uma comunicação silenciosa com os objetos subjetivos pertencentes ao mundo interno do indivíduo. Este constitui-se no elemento não comunicado inerente a todas as personalidades. O que é fundamental é fazer a vida adquirir um sentido e viver com qualidade.

ABRAM, Jan. A linguagem de Winnicott. Dicionário das palavras e expressões utilizadas por Donald W. Winnicott. Rio de Janeiro: REVINTER, 2000. p. 55 a 64; 85 a 89.


[1] O self em Winnicott é como o indivíduo sente a si mesmo, de forma ampla e unificada, isto é, não limitada ao “eu”.

[2] Holding em Winnicott: a dedicação da mãe com o objetivo de uma sustentação física e emocional do seu filho, especialmente na primeira infância.


WINNICOTT E O JOGO DA ESPÁTULA

 

Khan (1978) ressalta o talento de Winnicott para compreender as fantasias inconscientes da criança pequena pela via dos seus jogos. Afinal, a observação de bebês em uma situação estabelecida é também conhecida como um jogo, ou seja, o jogo da espátula (Abram, 1996/2000). Portanto, vale salientar, que, na clínica de Winnicott, o jogo tem uma função essencial, pois, sem ele, o bebê e a mãe permanecem estranhos um ao outro. Winnicott considera que a capacidade para o jogo inicia-se precocemente, localizando esse acontecimento em doze semanas de idade. Trata-se de um jogo muito significativo, em que “um bebê às vezes alimenta a mãe enquanto é alimentado, pondo o dedo em sua própria boca” (Winnicott, 1948/1978, p. 299). Esse jogo do bebê alimentar a mãe pode ser observado na sequência de eventos da situação estabelecida, apresentada a seguir.

Winnicott desenvolve uma divisão artificial na sequência de eventos que ele espera observar na situação – e que, na perspectiva do autor, referem se ao comportamento sadio do bebê.

No primeiro estágio, o bebê estende a mão para a espátula, mas recua, porque descobre que a situação merece ser considerada. Ele vivencia um dilema: observa a situação, olhando para a mãe e para o analista. Em alguns casos, o bebê espera ou retira completamente seu interesse pelo objeto reluzente e se esconde na blusa da mãe. Nesse caso específico, é muito interessante observar o retorno gradual e espontâneo do interesse pela espátula.

No segundo estágio, (...) o bebê mantém o corpo imóvel e, gradualmente, toma coragem para deixar que seus sentimentos cresçam até que o quadro se modifique rapidamente. O momento exato da passagem da primeira fase para a segunda é evidente, pois a aceitação da realidade do desejo pela espátula é anunciada por uma transformação no interior da boca do bebê, que se torna flácida, enquanto a língua se mostra espessa, e a saliva flui copiosamente. Logo, ele põe a espátula na boca e a mastiga com as gengivas. A mudança no comportamento do bebê é uma característica marcante e, em vez da expectativa e da imobilidade, surge agora autoconfiança. O bebê sente que tem a posse da espátula e que ela está à disposição dos seus propósitos de autoexpressão. Ele bate com a espátula na mesa, fazendo tanto barulho quanto possível, ou então a leva até a boca da mãe e do analista, ficando satisfeito quando eles fingem ser alimentados por ele. O bebê fica muito aborrecido se por acaso esse jogo for estragado.

No terceiro estágio, o bebê deixa a espátula cair como se fosse por engano. Se ela é restituída, ele fica contente, brinca de novo com ela e a deixa cair mais uma vez, desta vez, porém, de modo menos fortuito. Recebendo-a de volta, deixa cair de propósito e diverte-se enormemente, livrando-se dela com agressividade. O final da terceira fase ocorre quando o bebê deseja descer para o chão e permanecer junto à espátula, com o intuito de brincar, ou ele se cansa da espátula e busca outros objetos ao seu alcance.

Winnicott considera a hesitação a mais interessante variação do comportamento do bebê, pois ela demanda que o bebê retenha seu interesse e seu desejo pela espátula, até que ele possa fazer um exame do ambiente, testando se o mesmo é capaz de proporcionar resultados satisfatórios. O autor entende que a hesitação se configura como um sinal de ansiedade, que se relaciona a algo que se passa no corpo e na mente do bebê.  (...) Ao se questionar por que o bebê hesita (...), Winnicott infere que isso acontece porque ele aprendeu a esperar que a mãe o desaprove, ou se zangue quando ele leva alguma coisa à boca. A hesitação, para Winnicott (1941/1978), demonstra que, caso o bebê espere produzir uma mãe zangada, ele se sente ameaçado e que possivelmente ele tem em sua mente a noção de uma mãe zangada. Caso a mãe se mostre zangada, somos levados até as fantasias apreensivas do bebê. E, “quando não houve qualquer experiência de proibição, a hesitação indica conflito, ou a existência, na mente do bebê, de uma fantasia correspondente à recordação que o bebê tem de sua mãe realmente perigosa” (Winnicott, 1941/1978, p. 150).

Winnicott (1941/1978) faz uma correlação entre o terceiro estágio da situação estabelecida com a observação específica do Fort-da de Freud (1920/1969). O autor sistematiza os apontamentos freudianos, considerando que o psicanalista vienense compreende que o jogo do neto diz respeito a uma tentativa do menino de dominar sua angústia, suscitada pela situação de separação da mãe. Freud observa que o ato do menino de se desfazer do carretel, quando a mãe se afasta, não se refere apenas à perda de sua mãe real, mas também à perda da mãe interna. O Fort-da representa um avanço, quando o menino descobre que pode dominar sua relação com a mãe interna e pode fazê-la desaparecer, sem precisar temer seu retorno. O carretel, por sua presentificação asseguradora, inverte a situação, e, de passivo na realidade, o menino torna-se ativo no jogo, fazendo sua mãe desaparecer e reaparecer a seu gosto. (...)

O estudo do instrumento nos permite pensar na quantidade e na qualidade de recursos internos que o bebê precisa recrutar para conseguir alcançar o objeto reluzente. No setting, o brilho da espátula mobiliza o ímpeto do bebê para tomar posse dela, desencadeando o desejo, o dilema e a hesitação, que fazem o bebê frear seu interesse e procurar pelo olhar materno, com o propósito de considerar a situação. Quando a mãe, por meio do seu olhar de aprovação, permite que o bebê tome posse da espátula, o primeiro gesto espontâneo da criança diz respeito à livre manipulação da espátula e à produção de efeitos, como barulho e brincadeiras. Esse comportamento do bebê nos permite inferir que o olhar da mãe é um componente importante em termos da sustentação da situação estabelecida. Portanto, para que o bebê se direcione à espátula, a mãe precisa estar convicta em apostar que naquele bebê existe um indivíduo capaz de se precipitar até um objeto reluzente. Além disso, a situação estabelecida nos permite testemunhar a expressão de elementos “sofisticados” no que diz respeito à relação que o bebê estabelece com a mãe. No setting clínico, a mãe, por meio da espátula, oferece ao filho um objeto que estabelece uma primeira modalidade de afastamento consentido. E o bebê, por sua vez, ao possuir a espátula, torna-se capaz de “dominá-la à sua vontade ou usá-la como uma extensão da sua personalidade” (Klautau, 2002, pp. 129-130), vivenciando a possibilidade de descolar-se do corpo da mãe.

Referências bibliográficas:

Abram, J. (2000). A linguagem de Winnicott. Rio de Janeiro: Revinter. (Trabalho original publicado em 1996)

Freud, S. (1969). Além do princípio do prazer. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 18, pp.13 85). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1920)

Khan, M. M. (1978). Prefácio. In D. Winnicott, Textos selecionados: da pediatria à psicanálise (pp. 7-61). Rio de Janeiro: Francisco Alves.

Klautau, P. (2002). Encontros e desencontros entre Winnicott e Lacan. São Paulo: Escuta.

Winnicott, D. W. (1978). A observação de bebês em uma situação estabelecida. In D. W. Winnicott, Textos selecionados: da pediatria à psicanálise (pp.139-164). Rio de Janeiro: Francisco Alves. (Trabalho original publicado em 1941)

Winnicott, D. W. (1978). A reparação em função da defesa materna organizada contra a depressão. In D. W. Winnicott, Textos selecionados: da pediatria à psicanálise (pp.187-195). Rio de Janeiro: Francisco Al ves. (Trabalho original publicado em 1948)

 

CORRÊA, Fernanda Marinho e Ângela VORCARO, Maria Resende. Um objeto reluzente – passos iniciais da clínica psicanalítica com bebês de D. W. Winnicott. Revista Estilos da Clinica, São Paulo, v. 19, n. 1, jan./abr. 2014, 14-39. http://dx.doi.org/10.11606/issn.1981-1624.v19i1p14-39


RELAÇÃO ENTRE O JOGO DA ESPÁTULA E O FORT-DA SEGUNDO WINNICOTT

Embora eu conhecesse já há muitos anos a descrição feita por Freud ao jogo com o carretel, e sempre tenha me sentido estimulado por ela a realizar observações detalhadas das brincadeiras infantis, foi somente nos últimos anos que passei a perceber a íntima conexão entre o meu terceiro estágio e os comentários de Freud.

Atualmente parece-me possível compreender as minhas observações como uma extensão para trás dessa observação específica de Freud. Acredito que o carretel, representando a mãe do menino, é jogado longe para indicar que o menino se livra da mãe, porque o carretel que ele possui representa a mãe que ele possui. Tendo passado a conhecer a sequência completa de incorporar, reter e livrar-se, agora percebo que o ato de lançar o carretel para longe é parte do jogo, ficando as outras partes implícitas, ou jogadas num estágio anterior. Em outras palavras, quando a mãe se afasta, trata-se não apenas da perda da mãe externa e real, mas também de um teste para o relacionamento do menino com sua mãe interna. Esta mãe interna reflete, em grande medida, os seus próprios sentimentos, que podem ser amorosos ou aterrorizantes, ou alternarem rapidamente entre uma atitude e outra. Quando o menino percebe que conseguiu tornar-se senhor de seu relacionamento com sua mãe interna, podendo inclusive livrar-se dela agressivamente (Freud o assinala claramente), ele pode aceitar o desaparecimento de sua mãe externa sem temer em demasia o seu não retorno.

Nestes últimos anos pude compreender (aplicando o trabalho de Melanie Klein) a função, na mente até mesmo do bebê, do medo de perder a mãe ou ambos os pais enquanto posse interna valiosa. Quando a mãe se afasta da criança, esta sente que perdeu não apenas a pessoa real, mas também a contraparte no interior de sua mente, pois a mãe no mundo externo e aquela do mundo interno estão ainda muito ligadas uma à outra na mente do bebê, sendo até certo ponto interdependentes. A perda da mãe interna, que havia adquirido para o bebê o caráter de uma fonte de amor e proteção e da própria vida, reforça enormemente a ameaça de perder a mãe real. Mais ainda: o bebê que joga a espátula para longe (e creio que o mesmo se aplica ao menino com o carretel) não está apenas se livrando de uma mãe externa e interna que acirrou a sua agressividade e está sendo expelida, mas que pode ser trazida de volta; em minha opinião, o bebê está ao mesmo tempo externalizando uma mãe interna cuja perda teme, a fim de demonstrar a si mesmo que essa mãe interna, agora representada pelo brinquedo no chão, não desapareceu de seu mundo interno, não foi destruída pelo ato de incorporação, continua amiga e ainda quer brincar. Desta forma a criança realiza uma revisão em seus relacionamentos com pessoas e coisas tanto interna quanto externamente.

Winnicott, D. W. (1978). A observação de bebês em uma situação estabelecida. In D. W. Winnicott, Textos selecionados: da pediatria à psicanálise (pp. 130 e 131). Rio de Janeiro: Francisco Alves. (Trabalho original publicado em 1941)


FERENCZI E O BRINCAR

 

Ferenczi percebeu que, no tratamento de pacientes regredidos, a tentativa de fazê-los elaborar suas angústias e fantasias através da interpretação das associações livres ou, simplesmente, encorajando-os a falar sobre seus sentimentos e pensamentos era sentida por eles como um comportamento frio e distante do analista. Os pacientes se rebelavam, acusando-o de ser indiferente, ou respondiam de modo mecânico às perguntas habituais e protocolares do analista, simplesmente adequando-se a ele.

Para facilitar a tendência à repetição do paciente sem perturbar ou desviar suas associações livres, Ferenczi introduziu, em 1931, um procedimento lúdico parecido com aquele utilizado pelos terapeutas de crianças, que denominou de jogo de perguntas e respostas. O jogo consistia em perguntar para o paciente, em tom alinhado à fala dele, algo referente àquilo que o paciente estivesse relatando ou rememorando.

A fim de alcançar os melhores resultados terapêuticos desejáveis, com a ajuda de um paciente que desenvolvia com ele uma transferência de tipo avoenga (transferência que recupera o afeto antigo voltado para os avós), Ferenczi, ao invés de interpretá-lo, comunicou-se com o paciente, assumindo o lugar que lhe foi transferencialmente destinado, como em um jogo de perguntas e respostas, brincando de vovô e netinho. Vejamos o relato a seguir:

“Eu já sei, graças à elucidação analítica de seu passado, que nas cenas revividas ele me identifica com seu avô. De repente, no meio de seu relato, passa-me um braço em redor do pescoço e murmura-me ao ouvido: ‘Sabe vovô, receio que vou ter um bebê...’ Tive então a feliz ideia, parece-me, de nada dizer de imediato sobre a transferência ou alguma coisa no gênero, mas de lhe devolver a pergunta no mesmo tom sussurrado: ‘Ah, sim, por que é que você pensa isso?’ Como veem, deixei-me levar para um jogo que poderíamos chamar de perguntas e respostas, inteiramente análogo aos processos que nos descrevem os analistas de crianças, e já faz algum tempo que esse pequeno truque funciona muito bem” (Ferenczi, Análises de crianças com adultos).

         A eficácia do jogo de perguntas e respostas consistia em que as perguntas e toda a comunicação feita por Ferenczi deveriam se adequar à capacidade especial da memória cindida do paciente, isto é, o analista fazendo contato direto com a parte infantil dissociada da personalidade que se apresenta naquele momento. Assim, a técnica do jogo de perguntas e respostas também permitia a expressão das dores psíquicas do paciente guardadas na parte cindida da personalidade que podem se manifestar como verdadeiras encenações (acting in) durante o processo terapêutico.

         Essa adequação do analista à condição psicológica do analisando – a capacidade de saber com quem está se falando no paciente – parece fundamental, conforme nos alertou Ferenczi:

“Mas não creiam que, nesse jogo, me seja possível fazer qualquer pergunta. Se esta não for bastante simples, se não estiver verdadeiramente adaptada à inteligência de uma criança, então o diálogo é interrompido rapidamente, e mais de um paciente me jogou na cara que eu havia sido desastrado, que tinha, por assim dizer, estragado o jogo. Nesses casos, aconteceu por vezes introduzir em minhas perguntas e respostas coisas das quais a criança, na época, não podia ter conhecimento. Uma recusa ainda mais enérgica foi-me oposta quando tentava apresentar interpretações demasiado científicas” (Ferenczi, Análises de crianças com adultos).

         Ferenczi relatou suas primeiras reações frente à reprovação dos pacientes quando ele rompia as regras do jogo. Contrariado, ele experimentou uma “indignação autoritária”. Disse que se sentia ferido em seu narcisismo com a pretensão do paciente ou do aluno, de saber as coisas melhor do que ele. Entretanto, seu pensamento de que, afinal, o paciente “devia saber sobre si mesmo mais do que eu poderia imaginar” levou-o a compreender que o reconhecimento do seu erro, com a consequente reparação, ao invés de minar a confiança que os pacientes depositavam nele, aumentavam-na.

         O jogo de perguntas e respostas também possibilitou que alguns pacientes começassem “a mergulhar numa espécie de transe alucinatório, durante o qual encenavam acontecimentos traumáticos, cuja lembrança inconsciente estava igualmente dissimulada atrás das verbalizações lúdicas”.

         Suscitar um material importante, dissociado e atuado que esteja fora do circuito “oficial” de representações para então ligá-lo a alguma representação simbólica, em forma de memorização, era um procedimento extremamente útil na psicoterapia do trauma e Ferenczi havia encontrado um modo de realizar essa tarefa com o jogo de perguntas e respostas. Em suas palavras:

“Naturalmente, a tarefa analítica não é preenchida com a reativação do estado infantil e a reprodução atuada dos traumas. O material lúdico atuado, ou repetido de qualquer forma, deve ser submetido a uma investigação psicanalítica aprofundada. Sem dúvida, Freud tem razão em nos ensinar que a análise obtém uma vitória quando consegue substituir o agir pela rememoração; mas penso haver também vantagem em suscitar um material atuado importante, que poderá em seguida ser transformado em rememoração. Em princípio, também sou conta as explosões descontroladas, mas penso ser útil descobrir, tão amplamente quanto possível, as tendências para a ação, escondidas antes de passar ao trabalho do pensamento, assim como à educação que ocorre paralelamente” (Ferenczi, Análises de crianças com adultos).

         Com esse novo dispositivo técnico, mais uma vez, o psicanalista húngaro ampliou os recursos psicanalíticos, aumentando assim sua capacidade de aplicação e servindo como fonte de inspiração para muitos outros psicanalistas de gerações posteriores, no trabalho com crianças ou psicóticos, como, por exemplo, Klein, e sua psicanálise através do brinquedo, e Winnicott, com seu jogo do rabisco. (...)

         No trabalho com pacientes traumatizados, Ferenczi percebeu que o brincar é um eficaz instrumento terapêutico que pode substituir a interpretação de conteúdos inconscientes, quando esta é ineficaz ou é iatrogênica. (...) Desse modo, na medida em que conteúdos dissociados (...) estivessem ausentes da consciência (...), Ferenczi inverteu a lógica freudiana da substituição do agir pelo rememorar. Ele, assim, conseguiu fazer com que o paciente, ao “brincar terapeuticamente”, suscitasse uma experiência traumática clivada por meio da dramatização ou da fala infantilizada, e a transformasse a seguir em rememoração.

KAHTUNI, Haydée Christinne e SANCHES, Gisela Paraná. Dicionário do pensamento de Sándor Ferenczi: uma contribuição à clínica psicanalítica contemporânea. Rio de Janeiro: Elsevier; São Paulo: FAPESP, 2009. Verbetes: Jogo de perguntas e respostas (análise pelo jogo) e Brincar. p. 228 a 230, 82 e 83.

 

 PLAY (BRINCAR) NA NEUROPSICANÁLISE DE MARK SOLMS

 

O meu paciente cuja queixa apresentada era “não sei como lidar com situações sociais” estava descrevendo ansiedade social. Ele continuou: “É como se todo mundo soubesse o que fazer e dizer e eu não. Também era assim quando eu estava na escola. Quero me sentir mais confiante. Embora eu saiba que conquistei muito, ainda não me sinto assim. Quero ser respeitado. Para ser sincero: quero ser admirado”. Portanto, esse paciente estava angustiado com seu status social. (Observe as palavras de sentimento: confiança, realização, respeito, admiração.) Por mais estranho que possa parecer, o status social — assim como o vínculo de apego — é uma necessidade básica dos mamíferos. Os mamíferos são animais sociais; eles vivem em grupos, e seus grupos são organizados hierarquicamente. Quanto mais alta for sua posição na hierarquia, maior será seu acesso aos recursos do grupo. Se você — mamífero que é — aprende a atender a essa necessidade, sente-se bem de uma maneira específica; se não consegue atendê-la, sente-se mal de uma maneira específica — como aconteceu com esse paciente. Pense na sua infância. O playground era uma selva. Ser aceito em um grupo de colegas “descolados” e adquirir algum status na hierarquia era uma tarefa emocional muito importante. O status não é menos importante para nós, adultos; por que mais nos empenharíamos tanto nas mídias sociais, por exemplo? A primeira tarefa do clínico é reconhecer a constelação de sentimentos ruins — a síndrome — e classificá-la de acordo.

Na época de Freud, tínhamos uma taxonomia muito inadequada das necessidades básicas do animal humano. Inicialmente, Freud acreditava que todos os prazeres e desprazeres eram sexuais e, por isso, atribuiu sua inegável variedade ao que ele chamou de “componentes” de uma hipotética e abrangente pulsão sexual. (...) Os psicanalistas que acompanharam os desenvolvimentos da neurobiologia, no entanto — como Freud sempre esperou que fizéssemos —, reconheceriam o sofrimento emocional desse paciente como um fracasso na capacidade de brincar (isto é, na necessidade mamífera básica de se sentir aceito, incluído, confiante, bem-sucedido, respeitado, admirado etc.)[1].

SOLMS, Mark. Freud e o cérebro: a ciência da mente e da cura psicanalítica. Barueri (SP): Amarilys, 2026. p. 121 e 122.

 

Outro impulso de apego (...) é a necessidade de ser aceito como membro do grupo e de alcançar status dentro dele, já que as sociedades de mamíferos são organizadas hierarquicamente. Essa é a função do sistema PLAY (sistema de brincadeira/jogo social, ligado ao desenvolvimento social). O comportamento instintivo associado a esse impulso é a luta corporal como brincadeira: nós fazemos isso, os cães fazem isso, os gatos fazem isso, os esquilos fazem isso; até mesmo os golfinhos fazem isso, à sua maneira. Há dois imperativos biológicos envolvidos aqui. O primeiro é revelado pelo fato de que, embora as crianças adorem brincar, a maioria das sessões termina em lágrimas. Uma criança diz à outra: “Não vou mais brincar com você; você não está sendo justo”. O estudo de como a brincadeira se desintegra (não apenas em humanos) revela algo chamado de regra 60/40: se o parceiro dominante determinar as regras com muita exclusividade, não haverá mais diversão suficiente no jogo para o submisso. Portanto, aprender a brincar nos ensina a revezar — isto é, a satisfazer nossas necessidades emocionais em relação às necessidades emocionais dos outros — e, assim, a construir hierarquias sociais viáveis, em que há algo a ganhar para todos.

A outra regra do PLAY é a do “como se”. Se a luta de brincadeira se tornar uma briga de verdade, então não será mais PLAY, mas, sim, RAGE (sistema de raiva/agressão), talvez com uma mistura de FEAR (sistema de medo, relacionado a defesa e fuga). Da mesma maneira, se o jogo de polícia e ladrão se tornar real demais — se você trancar seu irmão mais novo e jogar a chave fora —, então não está mais brincando de polícia e ladrão, está trancando seu irmão. Brincar de médico permite que você tire a roupa do seu vizinho, mas, se você levar isso longe demais, não é um jogo; é LUST. Portanto, a segunda principal função da brincadeira (além de construir estruturas sociais viáveis) é permitir que pratiquemos como satisfazer nossas várias necessidades emocionais em um mundo de faz de conta, onde os riscos não são tão altos quanto na realidade.

As pessoas que não aprendem a satisfazer esse impulso tendem a ser excessivamente concretas e pouco empáticas. São pouco sociáveis ou até mesmo antissociais e, embora geralmente obcecadas por status e posição, não conseguem jogar o jogo. Como resultado, carecem da satisfação que poderiam encontrar na amizade, na relação mútua e recíproca, no pertencimento e no parentesco, no respeito próprio e assim por diante.

SOLMS, Mark. Freud e o cérebro: a ciência da mente e da cura psicanalítica. Barueri (SP): Amarilys, 2026. p. 155 a 156.

 

O amor romântico é um exemplo comum da necessidade de equilibrar várias demandas emocionais. Obviamente, envolve luxúria; caso contrário, não seria romântico. Mas também envolve apego (caso contrário, não seria amor). E o apego é uma via de mão dupla, portanto, também envolve cuidado. Negociar quem cuida de quem e, de modo mais geral, quais necessidades são priorizadas — em outras palavras, garantir que os recursos emocionais sejam distribuídos de maneira justa — diz respeito ao impulso PLAY. Esse impulso está envolvido na dinâmica do poder e na garantia de que ambos os parceiros se divirtam. Quando as coisas dão errado em qualquer um desses aspectos, o RAGE deve ser acomodado, pois tolerar uma certa quantidade de frustração é necessário em qualquer relacionamento bem-sucedido. E ainda há a busca por novidades: o impulso do apego quer que mantenhamos o amor de nosso parceiro para sempre, enquanto o sistema SEEKING está sempre atento a quem mais pode estar disponível. Se quiser ter relacionamentos românticos bem-sucedidos, você precisa aprender a conciliar todas essas necessidades entre si.

SOLMS, Mark. Freud e o cérebro: a ciência da mente e da cura psicanalítica. Barueri (SP): Amarilys, 2026.  p. 161.

 

Nós precisamos brincar. É o meio pelo qual os territórios são reivindicados e defendidos, as hierarquias sociais são formadas e as fronteiras dentro e fora do grupo são forjadas e mantidas.

Muitas vezes as pessoas se surpreendem ao saber que se trata de um impulso biológico, mas todos os mamíferos juvenis se envolvem em brincadeiras vigorosas e físicas. Se eles forem privados de sua cota em um dia, tentarão compensá-la no seguinte – como se fosse um rebote. Todos nós sabemos o que é a brincadeira de simulação de briga, embora a forma que ela assume varie um pouco de uma espécie de mamífero para outra. Uma sessão começa com uma postura ou gesto de “convite”; depois, se for aceito, o jogo começa. Um animal – ou uma criança persegue o outro, e então eles param enquanto lutam ou fazem cócegas um no outro, revezando quem fica por cima – tudo isso acompanhado de gargalhadas ou vocalização equivalente, dependendo da espécie (até mesmo os ratos “riem”). Em seguida, voltam a se levantar, perseguindo um ao outro na direção oposta. O estado de sentimento associado é igualmente universal: é chamado de diversão.

As crianças adoram brincar. No entanto, analisando empiricamente, a maioria dos episódios de brincadeiras termina em lágrimas. Isso fornece uma pista importante sobre do que se trata, falando de forma biológica: encontrar os limites do que é socialmente tolerável e permissível. Quando o jogo não é mais divertido para um colega – em geral porque ele decide que você não está sendo “justo” –, ele não joga mais. O limite dele é então atingido. A marcação desses limites é fundamental para a formação e a manutenção de grupos sociais estáveis. E a sobrevivência de um grupo é importante para a sobrevivência de cada membro do grupo em espécies sociais como a nossa.

Um critério importante a esse respeito é a dominância. Em qualquer situação de brincadeira, um dos participantes assume o papel principal e o outro é submisso. Isso é divertido para ambas as partes, desde que o dominante não insista em dar as ordens o tempo todo. A proporção aceitável de tomada de vez parece ser de aproximadamente 60/40. A “regra 60/40” da reciprocidade afirma que o parceiro submisso continua brincando desde que tenha oportunidades suficientes para assumir a liderança.

Isso revela uma segunda função do BRINCAR, qual seja, o estabelecimento de hierarquias sociais – uma “ordem de poder”. Assim, as brincadeiras de roda dão lugar (por meio do desenvolvimento) a jogos mais organizados e competitivos. É claro que as brincadeiras não se limitam a simulações de briga. Nós, seres humanos, nos envolvemos em jogos de faz de conta, nos quais os participantes experimentam diferentes papéis sociais (por exemplo, mãe/bebê, professor/aluno, médico/paciente, policial/ladrão, caubói/índio, rei do castelo/malandro – observe as sempre presentes hierarquias de status e poder). Não sabemos o que se passa na imaginação de outros mamíferos enquanto brincam, mas podemos supor com segurança que eles também estão “experimentando” diferentes papéis sociais e, assim, aprendendo o que podem e o que não podem fazer.

Isso sugere uma terceira função biológica para o BRINCAR. Ela exige (e condiciona) que você leve em conta os sentimentos dos outros. Se não o fizer, eles se recusarão a brincar com você, e assim você não sentirá o enorme prazer que isso proporciona. O agressor pode ficar com todos os brinquedos, mas será privado de toda a diversão. Parece ser por isto que o BRINCAR evoluiu (e por que tanto prazer está ligado a ele): ele promove formações sociais viáveis. Em uma palavra, é um veículo importante para o desenvolvimento da empatia.

Os episódios de brincadeira chegam a um fim abrupto quando perdem sua qualidade de “como se fosse”. Se você trancar sua irmãzinha e jogar fora a chave, não só terá quebrado a regra 60/40, mas também não estará mais brincando de polícia e ladrão; em vez disso, terá aprisionado sua irmã. Em outras palavras, o que está governando seu comportamento mútuo agora é o MEDO ou a RAIVA, e não o BRINCAR. O mesmo se aplica às outras brincadeiras listadas antes. “Médico/paciente” é uma brincadeira até que se torne sexo de verdade; então, passa a ser governado pelo DESEJO SEXUAL. O fato de o BRINCAR pairar, por assim dizer, sobre todas as outras emoções instintivas – experimentando-as e testando seus limites – talvez seja a razão pela qual não foi possível identificar um único circuito cerebral dele. Provavelmente, o BRINCAR recruta todos os sentidos. (...)

Nem sempre gostamos de reconhecer que os seres humanos, assim como outros mamíferos, naturalmente reivindicam territórios e formam hierarquias sociais com regras claras. (As regras que regem o comportamento dos primatas são muito complexas.) A estrutura de famílias, clãs, exércitos e até mesmo nações – de quase todos os grupos sociais – é hierárquica e territorial de forma inegável, e tem sido assim ao longo da história. Quanto mais alto o status social de um indivíduo dentro do grupo, maior o acesso que esse indivíduo tem aos recursos do território que o grupo controla. Essa observação não é uma questão de preferência pessoal; é um fato. Se não enfrentarmos esses fatos, não poderemos começar a lidar com eles. O fato de existirem impulsos emocionais não significa que não temos controle sobre eles, que somos obrigados a nos curvar diante da “lei da selva”; mas ignoramos esses impulsos por nossa conta e risco.

É fácil ver como o BRINCAR, em particular, dá origem a regras sociais. Essas regras norteiam o comportamento do grupo e, portanto, nos protegem dos excessos de nossas necessidades individuais. Também é fácil ver como as regras sociais incentivam formas complexas de comunicação e, consequentemente, como contribuem para o surgimento do pensamento simbólico. A qualidade “como se fosse” do BRINCAR sugere que ela pode até ser o precursor biológico do pensamento em geral (ou seja, da ação virtual versus real; ver acima). Alguns cientistas também acreditam que sonhar é um BRINCAR noturno, ou seja, é experimentar as emoções instintivas em um mundo “como se fosse”. É interessante notar que, no distúrbio comportamental do sono REM, em que a paralisia motora que costuma acompanhar os sonhos é perdida por causa de danos ao tronco cerebral, os pacientes (e os animais experimentais) encenam fisicamente os vários estereótipos instintivos por exemplo, fuga, congelamento, ataque predatório e ataque afetivo.

SOLMS, Mark. A fonte oculta: uma jornada até a origem da consciência. São Paulo: Martins Fontes, 2024. p. 128 a 132.

 

Minha intuição diz que a linguagem evoluiu sobretudo a partir do impulso do BRINCAR. (...) O BRINCAR dá origem à formação de regras sociais. Elas norteiam o comportamento do grupo e, assim, nos protegem das necessidades potencialmente excessivas de cada indivíduo. A regra 60/40 é uma regra social inata. Ela exige reciprocidade e mutualidade e, portanto, facilita o desenvolvimento da empatia – a capacidade de ler outras mentes. É fácil ver como a criação de regras sociais adquiridas incentiva formas complexas de comunicação para expressá-las e como isso, por sua vez, contribui para o surgimento do pensamento simbólico. A pressão para desenvolver regras artificiais aumentou de modo exponencial quando os seres humanos deixaram o antigo estilo de vida de caçadores-coletores, típico de todos os primatas, e começaram a viver em assentamentos permanentes, com plantações e criação de animais. Não tínhamos nenhuma preparação evolutiva para esse desenvolvimento, que ocorreu há apenas 12 mil anos – nenhuma, quer dizer, além do impulso do BRINCAR, que é fundamental para a formação de hierarquias sociais.

         Desse modo, é de grande interesse observar que o córtex contribui mais para o BRINCAR do que para qualquer outra emoção básica. É impossível conceber sua qualidade de “como se fosse” sem mecanismos corticais (...). O BRINCAR pode muito bem ser um precursor biológico do pensamento em geral (ou seja, de toda ação virtual versus real) e de toda a vida cultural.

         Leitores perspicazes notarão que o que eu disse nesta seção também sugere algo sobre o papel da linguagem na “cura pela fala” de Freud. O que é a psicoterapia senão uma intervenção direcionada na narrativa pessoal de alguém? Em minha opinião, a psicoterapia (...) também é uma forma de BRINCAR. Mas agora estou tocando em tópicos que merecem livros próprios

SOLMS, Mark. A fonte oculta: uma jornada até a origem da consciência. São Paulo: Martins Fontes, 2024. p. 277 a 278.



[1] Baseando-se em observações neurológicas e comportamentais dos mais diversos animais, inclusive seres humanos, o neurocientista e psicobiólogo estoniano Jaak Panksepp criou uma teoria que denominou “neurociência afetiva”. Utilizando conceitos da teoria de Panksepp, Mark Solms, o criador da neuropsicanálise, propôs a existência não de duas pulsões básicas no ser humano (como queria Freud), mas de sete. Além de (1) “brincadeira” (PLAY), que estamos aqui descrevendo, Solms reconhece também a existência de: (2) busca, expectativa (SEEKING); (3) ódio, raiva (RAGE); (4) angústia, ansiedade, medo (FEAR); (5) excitação sexual, luxúria (LUST); (6) afeto, cuidado (CARE); (7) desamparo, tristeza (PANIC/GRIEF).

Nenhum comentário:

Postar um comentário