Módulo 58

 IMAGINÁRIO EM LACAN




Em 1954-55, Lacan dedica um seminário à questão do eu na teoria e na técnica da psicanálise, ressaltando que, do ponto de vista freudiano, o eu se caracteriza pela unidade, sendo definido como um sistema ideacional na primeira tópica e como um sistema de defesa e de resistência na segunda tópica.

O imaginário corresponde à nomeação do registro psíquico referente aos desenvolvimentos freudianos sobre o narcisismo e a libido. O narcisismo, introduzido por Freud em 1914, em concomitância ao estudo da psicose realizado a partir das Memórias de um doente dos nervos, de Daniel Paul Schreber, revela a importância da imagem corporal como fonte de investimentos libidinais, que se repartem com os investimentos dirigidos aos objetos sexuais. Freud, partindo do ponto de vista econômico (quantidade energética de libido), opõe a libido do eu à libido do objeto. A partir dessa dicotomia, ele mostra a possibilidade de um certo equilíbrio na distribuição de energia, fazendo com que o excesso de investimento no eu acarrete um empobrecimento do objeto e vice-versa. Em casos “patológicos” extremos, como o caso do sujeito apaixonado, temos um investimento libidinal excessivo no objeto. Na psicose ocorreria o contrário, ou seja, um excesso de investimento no eu. Lacan retira desse texto de Freud uma importante conclusão, que jamais havia sido enunciada desse modo: o eu é um objeto. Tal conclusão implica em inúmeras consequências. Mas vamos acompanhar sua trajetória, desenvolvendo a dimensão do imaginário.

Em agosto de 1936, Lacan participa pela primeira vez de um congresso da IPA, em Marienbad, apresentando um trabalho intitulado “O estádio do espelho”. (...) Mais de dez anos depois, em 17 de julho de 1949, Lacan retorna ao tema, apresentando-o em outro congresso, em Zurique. Essa nova versão, publicada em Escritos, é intitulada O estádio do espelho como formador da função do eu. Este texto adquire uma significação cada vez maior à medida que o ensino de Lacan avança.

A construção do estádio do espelho parte dos estudos de Henri Wallon[1], em um artigo intitulado Como se desenvolve na criança a noção de corpo próprio, publicado em uma revista de psicologia belga, em 1932. Darwin, prestando atenção ao comportamento de seu filho Doddy diante do espelho, manifesta interesse nas relações da criança com a imagem do seu corpo. A psicologia científica - Baldwin, Köhler, Bühler, Wallon - estuda esse comportamento com o intuito de evidenciar a diferença da inteligência dos humanos e dos primatas. Em uma minuciosa descrição comportamental, Wallon demonstra que o bebê, entre seis e dezoito meses, passa por várias etapas, através das quais chega a reconhecer, em determinado momento, a sua imagem no espelho. Este acontecimento é acompanhado por intenso júbilo. Essa alegria, causada pelo reconhecimento da própria imagem, é efeito de um processo de identificação. Ou seja: “a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem”. Em uma fase que a criança é absolutamente dependente do outro, a prefiguração da imagem unificada do próprio corpo produz a ilusão de um domínio que, apesar de fictício, a deixa radiante. Essa imagem corporal é denominada de eu-ideal.

Ainda em relação à imagem unificada do corpo próprio, Lacan afirma que o regozijo indica também uma saída para a experiência dolorosa da imagem do corpo despedaçado. Uma passagem de Lacan merece ser citada: “Trata-se dessa representação narcísica que tentei expor no congresso internacional ao falar do ‘estádio do espelho’. Essa representação explica a unidade do corpo humano; por que essa unidade deve se afirmar? Precisamente porque o homem sente da maneira mais penosa a ameaça desse despedaçamento. É nos seis primeiros meses de prematuração biológica que vem fixar-se a angústia.” O corpo despedaçado é o corpo pulsional: um corpo sem imagens e sem sentido. Trata-se, portanto, de um corpo real. Sem dúvida, o estádio do espelho faz com que o bebê não se sinta mais aos pedaços, mas como Um.

O modo pelo qual o eu se constitui determina a sua função de desconhecimento. É nesse sentido que Lacan, retomando a teoria freudiana da segunda tópica, afirma que o eu é a sede das resistências e, como tal, agente do recalque e da denegação quando se realiza o retorno do recalcado.

Se para Wallon o estádio do espelho é uma fase ligada a uma dialética natural, para Lacan ele inaugura a matriz do ideal da estrutura do eu, cuja lei é o transitivismo: o eu é o outro. Ou dito de outro modo: nas relações especulares, os limites entre o corpo de um e o corpo do outro se desfazem. Sem demarcação, o impasse gera fusão e confusão, produzindo o que é próprio das relações imaginárias sem mediação simbólica: rivalidade, hostilidade, agressividade etc. Se no imaginário o outro é correlato do eu, logo não há nunca lugar para mais um. Lacan, em O seminário 1: Os escritos técnicos de Freud, afirma que a história da humanidade é permeada por guerras e atrocidades porque a agressividade faz parte da estrutura do eu.

Outro desdobramento da definição lacaniana do eu é que ele se constitui como objeto, tornando-se, assim, a sede de todas as identificações imaginárias. A quantidade de vezes que os adultos se olham no espelho revela a constante necessidade de reasseguramento da imagem. As academias de ginásticas, as cirurgias plásticas, os cosméticos, os tratamentos estéticos etc. nada mais são que utensílios a serem usados pela ditadura da moda para impor uma imagem de corpo belo e sadio. Sem dúvida, a indústria e a publicidade movimentam altas somas de dividendos explorando o narcisismo do homem.

É necessário marcar a distinção entre as três instâncias do eu: eu ideal, ideal do eu e supereu. O eu ideal - i(a) - se constitui no estádio do espelho (...). O ideal do eu - I(a) (...) é também nomeado por Lacan de moi (mim). A forma oblíqua do pronome eu expressa a posição do sujeito como objeto em relação ao desejo do Outro. Se o eu ideal é o outro como imagem com valor cativante, o ideal do eu é o outro como falante. O eu ideal estabelece uma relação dual com o outro, assim como o ideal do eu estabelece uma relação triádica com o outro, porque inclui nela a palavra como mediação. Justamente por isso o ideal do eu é, ao mesmo tempo, o outro como semelhante e como diferente.

Às vezes, em alguns textos, Freud usa supereu e ideal do eu como sinônimos. Mas em Psicologia de grupo e análise do eu essa indistinção não ocorre. Nesse texto, onde Freud se dedica ao estudo das relações entre sujeito e objeto, através dos processos de identificação, fica bastante claro que as formações dos ideais são comandadas pelo ideal do eu que, aqui, se diferencia radicalmente do supereu. Lacan, tomando esse texto como ponto de partida, chama atenção de que, apesar do ideal do eu e do supereu se inscreverem no registro simbólico, isto é, na dimensão da palavra (linguagem) e terem como mecanismo a introjeção, eles não são idênticos. O ideal do eu é exaltante e glorificante. O supereu é coercitivo, imperativo e tirânico. O seu caráter sempre cego e insensato faz com que ele seja ao mesmo tempo a lei e sua destruição. Trata-se, portanto, de uma lei sem sentido que só se sustenta na linguagem. O modo pelo qual o supereu se relaciona com o Outro, coloca em cena o que Lacan chama de Tu fundamental: aquele que censura e que vigia o tempo todo. Enfim, estamos diante de um Tu que se apresenta tanto na ordem do imperativo quanto na do amor.

O alcance do estádio do espelho se revela quando o tomamos sob o ponto de vista do estudo da psicose. Com ele, podemos delimitar duas regiões bem distintas no campo da psicose. As vivências de despedaçamento corporal do esquizofrênico (fragmentação dos membros etc.) apontam para um corpo real, anterior ao estádio do espelho. Freud descobre a lógica do delírio paranoico no famoso Caso Schreber, publicado em 1911, com o título de Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranoia. Lacan, retomando as diferentes versões do delírio paranoico - delírios de perseguição, de erotomania, de ciúmes, de grandeza -, apresenta a prevalência do registro do olhar do outro em sua constituição imaginária: é o outro que me persegue, me ama, me trai etc. Enfim, na esquizofrenia não se constitui o eu como imagem unificada do corpo próprio e na paranoia essa imagem, apesar de constituída, não é dialetizada pela palavra do Outro, porque este sempre é reduzido ao outro como semelhante.

Contudo, essas duas regiões, esquizofrenia e paranoia, na estrutura da psicose, não são estanques e seus limites podem ser franqueados. Schreber, por exemplo, diagnosticado como um caso de paranoia, apresenta episódios esquizofrênicos, com medo de comer porque tinha pavor de engolir o próprio esôfago ao deglutir[2]. Na paranoia, o delírio, com suas características de desvario bem construído e sistematizado, mostra o simbólico funcionando na psicose. Não é à-toa que Lacan se refere a Jean-Jacques Rousseau como um paranoico genial. (...) Esses escritores dominam sua língua materna e são verdadeiros artífices da linguagem. É lógico que esses autores são habitantes do Outro e, como tais, introjetaram sua estrutura, que é a mesma da linguagem[3].

JORGE, Marco Antonio Coutinho. Lacan, o grande freudiano. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 37 a 44.

 

Em inúmeras disciplinas, de múltiplas perspectivas, existe hoje um sentimento crescente de desconforto em face das noções de eu, subjetividade e sujeito. Essas noções originaram-se na dúvida metódica cartesiana e podem ser inferidas da célebre frase “Cogito ergo sum” (Penso, logo sou [existo]). Quando esse sujeito diz para si mesmo: “Eu penso”, ser e pensar coincidem nesse momento. É o fato de pensar que serve de base para a sua existência. Nesse lugar, o pensamento se liga ao sujeito falante “eu”. Esse “eu” que pensa e, porque pensa, constitui-se como ser existente, é, antes de tudo, uma entidade original que se identifica com a consciência e com a totalidade da pessoa. É o princípio da unidade individual. (...)

         Assim, eu, pensamento, consciência e sujeito são coextensivos e identificam-se (...). A partir daí essa fonte foi erigida no Ocidente como a nova morada da verdade, deslocada do céu platônico para a interioridade do eu, concebido como sujeito único da verdade [4]. Enfim, (...) trata-se de um sujeito presente a si, dotado de capacidade de introspecção e intelecção, sujeito que tem na racionalidade um apoio seguro para ter acesso, uma vez eliminados os enganos originados pelo sensível e pelo corpo, a um conhecimento e uma percepção verazes e objetivos.

         Não obstante a força com que perdurou no tempo, essa ideia de sujeito foi perdendo seu poder de influência, no decorrer do século passado, para ser sumariamente questionada há duas ou três décadas, quando, nas mais diversas áreas das humanidades e ciências, alardeia-se que estamos assistindo à morte do sujeito. Sob as rubricas “crise do eu” ou “crise da subjetividade”, critica-se e rejeita-se a definição de um sujeito universal, estável, unificado, totalizado e totalizante, interiorizado e individualizado. Enfim, as tracionais visões da subjetividade humana e do eu tornaram-se uma construção em ruínas, afirma Tadeu da Silva[5]. Para esse autor, as devastadoras demolições já haviam tido início com os “mestres da suspeita”: Marx, Freud, Nietzsche e Heidegger, para prosseguir, incansável, a partir de meados do século XX, “com as operações de desalojamento do cogito cartesiano efetuadas pela revisão althusseriana de Marx e pela revisão lacaniana de Freud. Depois, com os pós-estruturalistas, Foucault, Deleuze, Derrida, Lyotard, o estrago se tornaria irremediável e irreversível. Sem volta. (...)”.

         Já nos escritos de Freud, o eu (ou ego) não é uma realidade originária. Pelo contrário, a imagem do eu é o produto de uma construção imaginária. É essa construção que nos ilude quanto à existência de uma forma coerente e unificada do humano, quando, na realidade, a ontologia humana é necessariamente a ontologia de uma criatura despedaçada no seu próprio núcleo. Enquanto no cogito cartesiano o eu se apresentava como lugar da verdade, para Freud ele é o lugar do ocultamento. Com isso, a questão do sujeito sofre um deslocamento radical como fruto da emergência de um novo objeto – o inconsciente que, longe de ser meramente a face oculta da consciência, é constitutivo de toda a realidade psíquica.

         Enquanto a subjetividade cartesiana, psicológica, é uma subjetividade unificada, identificada com a consciência e pertencente a um sujeito psicofísico, a subjetividade psicanalítica é clivada e marcada por uma excentricidade essencial. “O inconsciente não é um acidente incômodo dessa subjetividade, mas o que a constitui fundamentalmente”[6].

         Por isso mesmo, além de não ter nada a ver com o eu cartesiano, o ego psicanalítico também não pode ser confundido com o eu da psicologia clássica. Na psicanálise, o eu é uma instância mista na qual coexistem partes e funções ao mesmo tempo conscientes, pré-conscientes e inconscientes, do que decorre não se poder identificar o eu com o indivíduo ou a pessoa, com a consciência, e afirmar que o eu seria a consciência de si. Pelo contrário, nos informa Nazio[7], ele é uma das três instâncias do aparelho psíquico (id, ego e superego), cuja parte consciente é bastante reduzida, pois no próprio coração do eu palpita a coisa mais estranha ao eu: o id, a instância mais marcada pelo traço específico do inconsciente, ou seja, a sobredeterminação exercida no eu por uma força desconhecida e ao mesmo tempo íntima, conforme será mais bem explicitado adiante.

         Na sua releitura de Freud, Jacques Lacan estendeu a divisão psíquica do ego, id e superego nos três registros da condição humana: o imaginário, o real e o simbólico. (...) O imaginário é basicamente o registro psíquico correspondente ao ego (ao eu) do sujeito, cujo investimento libidinal foi denominado por Freud “narcisismo”. “O eu é como Narciso ama a si mesmo, ama a imagem de si mesmo que ele vê no outro. Essa imagem que é projetada no outro e no mundo que ele vê no outro. Essa imagem que é projetada no outro e no mundo é a fonte do amor, da paixão do desejo de reconhecimento, mas também da agressividade e da competição”[8].

         Em Introdução ao narcisismo, Freud concluiu que não existe, no início, uma unidade compatível ao eu do indivíduo, devendo esse eu ser construído. No seu texto sobre o estágio do espelho, Lacan[9] veio dar conta exatamente dessa constituição da função do eu que Freud trabalhara. É bastante conhecido o fato de que, para descrever a fase do espelho, Lacan se utilizou do esquema ótico, ou melhor, de um certo uso do esquema ótico que fosse capaz de introduzir, além da constituição do eu, também a função do sujeito na relação especular[10], conforme foi precisamente descrita por Miller[11]:

“Que é o estágio do espelho? Resume-se no interesse lúdico que a criança dá mostras, entre os seis e os dezoito meses, por sua imagem especular, aspecto pelo qual a criança se distingue, certamente, do animal. Reconhece a sua imagem, se interessa por ela, e esse é um fato que podemos admitir, é observável. Lacan (...) terminou considerando que o essencial não era nem a ideia do estádio, nem a observação. Quis explicar esse interesse singular da criança, e para isso recorreu à teoria de Bolk, segundo o qual o lactente humano é de fato, desde a origem, em seu nascimento, um prematuro, fisiologicamente falando. Por isso está numa situação constitutiva de desamparo, experimenta uma discordância intraorgânica. Portanto, segundo Lacan, se a criança exulta quando se reconhece em sua forma especular, é porque a completude da forma se antecipa ao que logrou atingir; a imagem é, sem dúvida, a sua, mas ao mesmo tempo é a de um outro, pois está em déficit com relação a ela. Devido a esse intervalo, a imagem de fato captura a criança – e esta se identifica com ela. Isso levou Lacan à ideia de que a alienação imaginária, quer dizer, o fato de identificar-se com a imagem de um outro, é constitutiva do eu (moi) no homem, e que o desenvolvimento do ser humano está escandido por identificações ideais. É um desenvolvimento no qual o imaginário está inscrito, e não um puro e simples desenvolvimento fisiológico.”

         Cumpre notar que o estádio do espelho não deve ser entendido literalmente, pois o que ele assinala é o tipo de relação da criança com seu semelhante, relação que demarca a totalidade do seu corpo. O que o espelho, que pode estar no olhar da mãe ou de quem cuida dele, devolve ao infans[12] é uma Gestalt[13] cuja função é ser estruturante no nível imaginário para o sujeito.  O corpo experienciado como despedaçado, na fase anterior ao espelho, ganha uma primeira demarcação de si pela identificação ao outro. O que surge nesse momento é a demarcação do próprio corpo, um corpo imaginado, vale lembrar.

         O imaginário corresponde assim à identificação à imagem do semelhante de que resulta um eu especular. O narcisismo só estabelece a relação do eu consigo próprio por meio de um outro com o qual o eu se identifica e nele se aliena. Na imagem identificatória, o eu se esboça ao mesmo tempo que se perde. Ao buscar a si mesmo, o eu encontra a imagem do outro. O eu ganha sua identidade em um jogo paradoxal, idílico e ao mesmo tempo mortífero, na oscilação entre o eu e o outro.

         Para conhecermos objetivamente quem somos, devemos nos ver fora de nós mesmos, em algo que contenha nossa imagem, mas não faz parte de nós. Temos de descobrir o interno no externo, assim como Narciso ao se apaixonar por sua imagem na superfície do lago, uma superfície agindo como uma máscara que só pode nos revelar algo distinto de nós mesmos. Senhor e servo do imaginário, o eu se projeta nas imagens em que se espelha: imaginário da natureza, imaginário do corpo, da mente e das relações sociais. É no período dos 6 aos 18 meses, portanto, que “o eu se precipita em uma forma primordial antes que se objetive na dialética da identificação ao Outro e que a linguagem lhe restitua no universal, sua função de sujeito”[14].    

É assim que a dimensão imaginária inaugura a subjetividade humana, sendo nossas relações com os semelhantes moldadas pela repetição de uma imagem. Originalmente essa imagem foi formada à maneira de um precipitado químico[15], passando a funcionar como uma unidade ideal, “numa linha de ficção que sempre será irredutível ao sujeito”[16]. Na procura de si mesma, a consciência crê se encontrar no espelho das criaturas e se perde no que não é ela. Tal situação é fundamentalmente mítica, uma metáfora da condição humana que está sempre a busca de uma completude repetidamente lograda, capturada incansavelmente em miragens que encenam um sentido onde o sentido está sempre em falta.

Dentro e fora da psicanálise, são muitas as vozes que afirmam que a ideia tradicional do eu entrou em uma crise que se pode crer irreversível. Têm sido escritos inúmeros obituários da imagem de ser humano que animou nossas filosofias e nossas éticas por muito tempo. Enfim, a desconstrução do sujeito está hoje vazando por todos os lados: nos discursos das feministas, nos estudos culturais sobre raça e etnia, nas análises pós-colonialistas, todos eles evidenciando que não existe sujeito ou self fora da história e da linguagem, fora da cultura e das relações de poder.

Não é apenas o pressuposto de que existe um sujeito universal, unitário e centrado que está em questão, mas, sobretudo, como porventura o sujeito poderia ser situado, corporificado, fragmentado, descentrado, desconstruído ou destruído. Por isso mesmo, no lugar dos antigos “sujeito” e “eu” proliferam novas imagens da subjetividade, todas elas unânimes, de uma maneira ou outra, na desconstrução do sujeito cartesiano. Essas imagens são muitas, (...) e elas podem ser encontradas, por exemplo, em Edgar Morin, Michel Foucault, Michel Serres, Gilles Deleuze e Felix Guattari.

SANTAELLA, Lucia. Linguagens líquidas na era da mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007. p. 100 a 105.

 

Na acepção dada por J. Lacan, este termo (então usado a maior parte das vezes como substantivo) é um dos três registros essenciais (o real, o simbólico e o imaginário) do campo psicanalítico. Este registro é caracterizado pela preponderância da relação com a imagem do semelhante.

         A noção de imaginário compreende-se em primeiro lugar em referência a uma das primeiras elaborações teóricas de Lacan a respeito da fase do espelho. No trabalho que consagrou a esta fase, o autor punha em evidência a ideia de que o ego da criança humana, sobretudo em virtude da prematuração biológica, constitui-se a partir da imagem do seu semelhante (ego especular).

Ao considerarmos esta experiência princeps[17], podemos qualificar como imaginário:

a) do ponto de vista intra-subjetivo: a relação fundamentalmente narcísica do sujeito com o seu ego;

b) do ponto de vista intersubjetivo: uma relação chamada dual baseada na imagem de um semelhante, e captada por ela (atração erótica, tensão agressiva). Para Lacan só existe semelhante - outro que seja eu - porque o ego é originariamente um outro;

c) quanto ao meio ambiente (Umwelt): uma relação do tipo das que a etologia animal (Lorenz, Tinbergen) descreveu e que atestam a importância desta ou daquela Gestalt no desencadeamento dos comportamentos;

d) quanto às significações: um tipo de apreensão em que certos fatores como a semelhança e o homeomorfismo desempenham um papel determinante, o que atesta uma espécie de coalescência do significante com o significado.

O uso muito especial que Lacan faz do termo imaginário nem por isso deixa de estar relacionado com o sentido habitual; qualquer comportamento, qualquer relação imaginária está, segundo Lacan, essencialmente votada ao malogro.

Lacan insiste na diferença, na oposição entre o imaginário e o simbólico, mostrando que a intersubjetividade não se reduz ao conjunto de relações que ele agrupou sob o termo imaginário e que, em especial no tratamento analítico, é importante não confundir os dois “registros”.

LAPLANCHE, Jean e PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário de psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2016. Verbete Imaginário. p. 233 e 234.

 

         Lacan (...) mostra (...) como a constituição do Eu do homem moderno, com suas exigências de individualidade e autonomia, coloca em funcionamento uma dinâmica de identificações e de desconhecimento própria à paranoia. Daí a cura vai estar ligada, em Lacan, a uma certa dissolução do Eu, a uma “experiência no limite da despersonalização”[18] muito próxima de um dos temas preferidos da vanguarda modernista. Essa exposição do caráter “paranoico” do Eu pode ser encontrada no que Lacan chama de estádio do espelho.

O estádio do espelho visa a demonstrar como a formação do Eu depende fundamentalmente de um processo ligado à constituição da imagem do corpo próprio. Nos primeiros meses de vida de uma criança, não há nada parecido a um Eu com suas funções de individualização e de síntese da experiência. Essa inexistência do Eu como instância de autorreferência seria o resultado de uma prematuração fundamental do bebê advinda, por exemplo, da incompletude anatômica do cérebro com seu sistema piramidal[19] e a consequente inexistência de um centro funcional capaz de coordenar tanto a motricidade voluntária quanto as experiências sensoriais. Na verdade, falta ao bebê o esquema mental de unidade do corpo próprio que lhe permita constituir seu corpo como totalidade, assim como operar distinções entre interno e externo, entre individualidade e alteridade.

É só entre o sexto e o décimo oitavo mês de vida que tal esquema mental será desenvolvido. Para tanto, faz-se necessário o reconhecimento de si na imagem especular ou a identificação com a imagem de um outro bebê. Pois ao reconhecer pela primeira vez sua imagem no espelho, a criança tem uma apreensão global e unificada de seu corpo. Dessa forma, essa unidade do corpo será primeiramente visual. Uma unidade da imagem que antecipará a descoordenação orgânica e que, por isso, induzirá o desenvolvimento do bebê.

Lacan encontra uma prova desse caráter indutor da imagem em relação ao comportamento através da apropriação de certas considerações sobre a biologia animal. Pois haveria uma correlação entre comportamento animal e comportamento humano no que diz respeito à relação com a imagem. Biólogos como Leonard Harrison Matthews (1901-1986) e Rémy Chauvin (1913-2009) demonstraram que, no reino animal, a simples presença de imagens acarreta modificações anatômicas e fisiológicas profundas. Por exemplo, Chauvin, em 1941, provou que a passagem do estágio solitário para o estágio gregário no gafanhoto migratório só poderia ser feita através da percepção da imagem de um gafanhoto adulto, que serve aqui como tipo: representante da espécie para o indivíduo, imagem que tem o valor de ideal. O que demonstraria como uma imagem pode regular o desenvolvimento dos indivíduos através de um processo de formação que é conformação à espécie.

No caso humano, a imagem ideal poderia induzir o desenvolvimento por ser modo de entrada em uma trama sociossimbólica. A imagem do irmão, do pai, da mãe são partes de um drama, contração de toda uma história normalmente ligada à estrutura familiar. Ou seja, seu valor vem de ela articular-se a um núcleo social no qual o sujeito procura se inserir. Lembremos, por exemplo, desta descrição de Santo Agostinho, tão utilizada por Lacan, a respeito do ciúme infantil: “Vi e observei”, dirá Agostinho, “uma criança cheia de inveja (invidia), que ainda não falava e já olhava, pálida, de rosto colérico, para o irmãozinho de colo”.[20] O que mobiliza a inveja em relação à imagem do irmão de colo é a percepção de que ela indica o lugar no qual se encontra o desejo da mãe, lugar que exclui o sujeito, mas cujo reconhecimento o constitui como objeto de amor.

Dessa forma, a imagem aparece como dispositivo fundamental de socialização e individuação. Por outro lado, essa teoria da formação da imagem do corpo próprio acaba por desempenhar a função anteriormente dada por Lacan à descrição da gênese social da personalidade.

Mas notemos principalmente como essa teoria da gênese do Eu através da imagem do corpo é, no fundo, a descrição do Eu como lugar privilegiado de alienação. Lacan quer mostrar como a formação do Eu só se daria por identificações: processos através dos quais o bebê introjeta uma imagem que vem de fora e que é oferecida por um Outro. Assim, para orientar-se no pensar e no agir, para aprender a desejar, para ter um lugar na estrutura familiar, o bebê inicialmente precisa raciocinar por analogia, imitar uma imagem na posição de tipo ideal adotando, assim, a perspectiva de um outro. Tais operações de imitação não são importantes apenas para a orientação das funções cognitivas, mas têm valor fundamental na constituição e no desenvolvimento subsequente do Eu em outros momentos da vida madura. O que levava Lacan a afirmar que “nada separa o eu de suas formas ideais” absorvidas no seio da vida social. Pois: “o eu é um objeto feito como uma cebola, podemos descascá-lo e encontraremos as identificações sucessivas que o constituíram”.[21] O que nos lembra que não há nada de próprio na imagem do si. Experiências de estranhamento diante de imagens do corpo próprio em fotografias e espelhos seriam manifestações fenomenológicas exemplares dessa natureza alienante da imagem de si. Fantasmas de despedaçamento do corpo, algo tão comum em crianças com menos de 5 anos, nos fornecem outro exemplo da precariedade do enraizamento da imagem corporal.

Nesse sentido, Lacan pode falar da constituição paranoica da própria gênese do Eu, pois se trata de mostrar como a autonomia e a individualidade, atributos essenciais à noção moderna de Eu, são apenas figuras do desconhecimento em relação a uma dependência constitutiva ao outro[22]. Acreditamos que nosso Eu é o centro de nossa autonomia e autoidentidade. No entanto, sua gênese demonstra como, nas palavras de Rimbaud, “Eu é um outro”. Daí a noção, central em Lacan, de que a verdadeira função do Eu não está ligada à síntese psíquica ou à síntese das representações, mas ao desconhecimento de sua própria gênese e à projeção de esquemas mentais no mundo.

Esse último ponto pode nos explicar melhor o que Lacan entende por Imaginário: uma das três instâncias, juntamente com o Simbólico e o Real, que dão conta do campo possível de experiências subjetivas.

Grosso modo, podemos dizer que o Imaginário é aquilo que o homem tem em comum com o comportamento animal. Trata-se de um conjunto de imagens ideais que guiam tanto o desenvolvimento da personalidade do indivíduo quanto sua relação com seu meio ambiente próprio.

Mas o que pode significar dizer que há um conjunto de imagens que guiam a relação do indivíduo com seu meio ambiente? Lembremos inicialmente que, para a psicanálise, os processos perceptivos e cognitivos não são “neutros”, mas dependem do sistema de interesses que temos em relação ao mundo. Isso implica admitir que o desejo é a função intencional determinante na interação do sujeito com seu meio ambiente.

Uma colocação dessa natureza parece implicar um relativismo e um psicologismo extremos que nos levariam a afirmar ser o mundo nada mais do que aquilo projetado pelo desejo particularista do sujeito. Relativismo aparentemente presente quando Lacan diz que o homem só encontra em seu meio ambiente imagens das coisas que ele próprio projetou: “É sempre em volta da sombra errante do seu próprio eu que se estruturarão todos os objetos do seu mundo [assim como sua percepção dos outros empíricos]. Eles terão um caráter fundamentalmente antropomórfico, digamos mesmo egomórfico”.[23] O que explica por que o Imaginário em Lacan é fundamentalmente narcísico.

Proposições dessa natureza parecem dificilmente defensáveis por não explicarem como podemos ter “mundos em comum”, cuja objetividade é socialmente reconhecida. No entanto, lembremos que, com sua teoria da constituição do Eu, Lacan demonstrou como é a partir da imagem do outro que oriento meu desejo e minha relação ao mundo social. A imagem mostra como “o desejo do homem é o desejo do outro”. Assim, não se trata simplesmente da projeção do Eu sobre o mundo dos objetos, já que a imagem do outro é a perspectiva de apreensão dos objetos. O mundo dos objetos já é sempre constituído através da perspectiva fornecida pelo desejo do outro, um desejo que não posso reconhecer como alteridade no interior do si mesmo. Impossibilidade que se manifesta na perpetuação de estruturas de agressividade e de exclusão em relação à alteridade.

SAFATLE, Vladimir. Introdução a Jacques Lacan. Belo Horizonte: Autêntica, 2020. p. 31 a 36.



[1] Henri Wallon (1879-1962) foi um psicólogo francês que estudava o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança em sua passagem para a vida adulta, relacionando fatores biológicos com as interações sociais.

[2] O psiquismo de Schreber teme o despedaçamento, no qual o esôfago se desconecta do resto.

[3] As construções racionais e linguísticas dos paranoicos, especialmente de paranoicos geniais, como Schreber e Rousseau, mostram que a hegemonia do imaginário no psiquismo não é suficiente para obstaculizar sofisticadas criações no campo simbólico.

[4] GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o inconsciente. Rio de Janeiro: Vozes, 2002. p. 210.

[5] TADEU DA SILVA, Tomaz. “Nós, ciborgues: o corpo elétrico e a dissolução do humano”. In: TADEU DA SILVA, Tomaz (Org.) Antropologia do ciborgue. Belo Horizonte: Autêntica, 2000, p. 11.

[6] GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o inconsciente. Rio de Janeiro: Vozes, 2002. p. 229.

[7] NAZIO, J-D. O prazer de ler Freud. Rio de Janeiro: Vozes, 1999, p. 75-76.

[8] QUINET, Antonio. A imagem rainha. In: O imaginário no ensino de Jacques Lacan. Escola Brasileira de Psicanálise, seção Rio de Janeiro, 1995, p. 7.

[9] LACAN, Jacques. El estadio del espejo como formador de la función del yo tal como se nos revela em la experiencia psicoanalítica. In: Lectura estruturalista de Freud. Mexico: Siglo Veinteuno 1971. p. 11-20.

[10] LACAN, Jacques. Seminário 11. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. p. 69 – 115.

[11] MILLER, Jacques-Alain. Percurso de Lacan: uma introdução. Rio de Janeiro: Zahar. p. 16 e 17.

[12] Infans: em latim, “aquele que não fala”, o humano em sua primeira infância.

[13] Gestalt: Forma geral, íntegra, unificada.

[14] LACAN, Jacques. Apud SAPORITI, Elisabeth. Elementos para a interpretação analítica: Lacan e Pierce. São Paulo: Escuta. p. 69.

[15] Um precipitado químico é um material sólido que se forma e se separa de uma solução líquida durante uma reação química. Considere-se que a “solidez” do material formado, que desce para o fundo da ampola, é parcial ou ilusória.

[16] LACAN, Jacques. Apud SAPORITI, Elisabeth. Elementos para a interpretação analítica: Lacan e Peirce. São Paulo: Escuta. p. 70 – 72.

[17] Princeps: em latim, o primeiro.

[18] LACAN, Jacques. Séminaire I. Paris: Seuil, 1980. p. 258.

[19] Por meio do seu “sistema piramidal”, o córtex cerebral transmite seus comandos para os neurônios motores, gerando os movimentos voluntários do corpo.

[20] SANTO AGOSTINHO. Confissões. Petrópolis: Vozes, 1993. I. 7.

[21] LACAN, Jacques. Séminaire I. Paris: Seuil, 1980. p. 194.

[22] Assim como na paranoia o desejo, os ciúmes, o ódio e o amor são projetados no outro, no estágio do espelho este outro contemplado é uma mera projeção de um sujeito em busca de força e integração. Devido a esta indistinção eu-outro, quando este outro idealizado não se comporta como o reflexo, a sombra do eu, desperta sentimentos de ódio, rivalidade e paranoia.

[23] LACAN, Jacques. Séminaire II. Paris: Seuil, 1982. p. 198.

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