Módulo 57

 A IMAGEM EM FREUD






REPRESENTAÇÃO DE COISA E REPRESENTAÇÃO DE PALAVRA

 

Representação de coisa e representação de palavra: expressões utilizadas por Freud nos seus textos metapsicológicos para distinguir dois tipos de “representações”, a que deriva da coisa, essencialmente visual, e a que deriva da palavra, essencialmente acústica. Esta distinção tem para ele um alcance metapsicológico, pois a ligação entre a representação de coisa e a representação de palavra correspondente caracteriza o sistema pré-consciente - consciente, ao contrário do sistema inconsciente, que apenas compreende representações de coisa. (...)

A ideia de representação de coisa está muito cedo presente na doutrina com a expressão, muito próxima, de “traços mnésicos”; estes depositam-se nos diversos sistemas mnésicos. Em Sobre a concepção das afasias. Estudo crítico (Zur Auffassung der Aphasien. Ein kritische Studie, 1891), encontramos o termo Objektvorstellung; em A interpretação de sonhos (Die Traumdeutung, 1900), Dingvorstellung. Uma das definições mais precisas apresentadas por Freud é a seguinte: “A representação de coisa consiste num investimento, se não de imagens mnésicas diretas da coisa, pelo menos no de traços mnésicos mais afastados, derivados dela.” Esta definição exige duas observações:

1 - A representação é aqui nitidamente diferenciada do traço mnésico: ela reinveste e reaviva este, que não é em si mesmo nada mais do que a inscrição do acontecimento;

2 - A representação de coisa não deve ser entendida como um análogo mental do conjunto da coisa. Esta está presente em diversos sistemas ou complexos associativos quanto a este ou aquele de seus aspectos.

As representações de palavra são introduzidas numa concepção que liga a verbalização e a tomada de consciência. Assim, desde o Projeto para uma psicologia científica (Entwurf einer Psychologie, 1895) encontramos a ideia de que é associando-se a uma imagem verbal que a imagem mnésica pode adquirir o “índice de qualidade” específico da consciência. Essa ideia permanecerá constante em Freud e é fundamental para compreendermos a passagem do processo primário para o processo secundário, da identidade de percepção para a identidade de pensamento. Reencontramo-la em O inconsciente (Das Unbewusste, 1915) sob a seguinte forma, que acentua o seu valor tópico: “A representação consciente engloba a representação de coisa mais a representação de palavra correspondente, enquanto a representação inconsciente é apenas a representação de coisa.”

O privilégio da representação de palavra não é redutível a uma supremacia do auditivo sobre o visual. Não é somente uma diferença entre os aparelhos sensoriais que está aqui em causa. Freud mostrou que na esquizofrenia as representações de palavra são também tratadas como representações de coisa, quer dizer, segundo as leis do processo primário; é também o que se passa no sonho, em que certas frases pronunciadas no estado de vigília são submetidas à condensação e ao deslocamento exatamente como as representações de coisa: “... quando as representações de palavra pertencentes aos restos diurnos são resíduos frescos e atuais de percepções, e não expressão de pensamentos, são tratadas como representações de coisa”.

LAPLANCHE, Jean e PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário de psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2016. Verbete Representação de coisa e representação de palavra. p. 450 e 451.


    Desde o seu estudo sobre a afasia (1891), Freud sublinha o lugar do visual na representação de coisa, a fim de compreender sua conexão problemática com a representação de palavra. Em A interpretação dos sonhos (1900), por uma parte, ele deu ao aparelho psíquico um modelo óptico e, por outra parte, assinalou que os materiais oníricos, da mesma forma que os traços mnésicos, apresentam-se na maioria das vezes como representações visuais. A exigência de representabilidade realiza-se, portanto, de modo visual. O reconhecimento ulterior das pulsões visuais dará a Freud a oportunidade de verificar que os seus destinos não são homólogos de outras pulsões. Por último, em Moisés e o monoteísmo (1939), ele insistirá na necessidade de descarte das estimulações visuais para se chegar à nomeação paterna, libertando a percepção da influência do corpo materno. Esse progresso da “vida do espírito” estaria ligado ao impacto da religião monoteísta sobre a vida psíquica e, em especial, às consequências da interdição da representação.

         Em Freud, o visual testemunha de maneira privilegiada a articulação entre o sexual e o sensorial. É uma direção de pensamento que será ampliada por Jacques Lacan em seu artigo sobre o “estágio do espelho”, onde, prolongando a reflexão de Freud sobre a dimensão visual do narcisismo, o acento incide sobre o aspecto constituinte do reflexo para a criança sustentado por sua mãe. A criança que se reconhece no espelho chega a uma identificação ao assumir sua imagem. Mas é também uma negação, pois a captação visual do espelho pode levar o sujeito a se confundir com a sua imagem e a ser alienado por uma definição visual de si mesmo que o impele para os desfiladeiros do imaginário.

MIJOLLA, Alain de. Dicionário internacional de psicanálise. Volume II M-Z. Rio de Janeiro: Imago, 2005. Verbete visual/o visual. p. 1962.


FIGURABILIDADE DO SONHO

 

Exigência a que estão submetidos os pensamentos do sonho; eles sofrem uma seleção e uma transformação que os tornam aptos a serem representados em imagens, sobretudo visuais. 

O sistema de expressão que constitui o sonho tem as suas leis próprias. Exige que todas as significações, até os pensamentos mais abstratos, exprimam-se por imagens. Os discursos, as palavras não são, segundo Freud, privilegiados a este respeito; figuram no sonho como elementos significativos, e não pelo sentido que têm na linguagem verbal.

Esta condição tem duas consequências:

1 - Leva a selecionar, “... entre as diversas ramificações dos pensamentos essenciais do sonho, a que permite uma figuração visual”; em especial, as articulações lógicas entre os pensamentos do sonho são eliminadas ou substituídas de modo mais ou menos feliz por formas de expressão que Freud descreveu em A interpretação de sonhos (Die Traumdeutung, 1900) (terceira parte do cap. VI: ‘‘Os processos de figuração do sonho”).

2 - Orienta os deslocamentos para substitutos figurados. E assim que o deslocamento da expressão (Ausdrucksverschiebung) irá fornecer um elo - uma palavra concreta - entre a noção abstrata e uma imagem sensorial (exemplo: deslizar do termo “aristocrata” para “altamente colocado”, suscetível de ser representado por uma “alta torre”).

Esta condição reguladora do trabalho do sonho tem a sua origem em definitivo na “regressão”, regressão simultaneamente tópica, formal e temporal. Sob este último aspecto, Freud insiste no papel polarizante, na elaboração das imagens do sonho, das cenas infantis de natureza essencialmente visual: “... a transformação dos pensamentos em imagens visuais pode ser uma consequência da atração que a recordação visual, que procura ressurgir, exerce sobre os pensamentos separados da consciência e que lutam por se exprimir. Segundo esta concepção, o sonho seria o substituto da cena infantil modificada por transferência para o recente. A cena infantil não consegue realizar-se de novo e tem de contentar-se com reaparecer sob a forma de sonho”

LAPLANCHE, Jean e PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário de psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2016. Verbete Figurabilidade ou representabilidade (consideração da -). p. 189.


O DEUS INVISÍVEL E A SUPERAÇÃO DA IMAGEM

 

Entre os preceitos da religião mosaica se acha um que é mais importante do que inicialmente se nota. É a proibição de fazer uma imagem de Deus, ou seja, a coação de adorar um deus que não se pode ver. Suspeitamos que nisso Moisés excedeu o rigor da religião de Aton. Talvez ele apenas quisesse ser coerente: seu deus, então, não teria nome nem rosto; talvez fosse uma nova medida contra as más práticas da magia. Aceitar essa proibição tinha um efeito profundo, porém. Significava preterir a percepção sensorial em favor do que deve ser designado como uma ideia abstrata - um triunfo da espiritualidade sobre a “sensorialidade”; a rigor, uma renúncia instintual, com as necessárias consequências psicológicas. (...)

A ordem social matriarcal foi substituída pela patriarcal - ao que se ligou, naturalmente, uma grande reviravolta nas condições jurídicas existentes até então. Acredita-se perceber ainda o eco dessa revolução na Oresteia de Ésquilo. Mas essa mudança da mãe para o pai caracteriza, além disso, uma vitória da espiritualidade sobre a “sensorialidade”, ou seja, um avanço cultural, pois a maternidade é demonstrada pelo testemunho dos sentidos, enquanto a paternidade é uma suposição baseada numa inferência e numa premissa. Tomar partido dessa forma, pondo o processo de pensamento acima da percepção dos sentidos, mostrou-se um passo prenhe de consequências. (...)

         Com a proibição mosaica, Deus foi elevado a um nível mais alto de intelectualidade; abriu-se o caminho para outras mudanças na concepção de Deus (...). Todos esses avanços na intelectualidade têm a consequência de aumentar o amor-próprio do indivíduo, de torná-lo orgulhoso, de modo que se sente superior aos demais, que permaneceram presos à “sensorialidade”. Sabemos que Moisés transmitiu aos judeus o exaltado sentimento de ser um povo eleito; com a desmaterialização do deus, foi acrescentado algo novo e precioso ao patrimônio oculto do povo. Os judeus conservaram o pendor por interesses intelectuais, a desgraça política da nação lhes ensinou a apreciar o valor do único bem que lhes restara, sua literatura. Logo após a destruição do templo de Jerusalém por Tito, o rabino Jochanan ben Sakkai solicitou permissão para abrir a primeira escola da Torá em Jabne. Dali em diante, foram as Sagradas Escrituras e o empenho intelectual a elas dedicado que mantiveram unido o povo disperso. (...)

         O avanço na espiritualidade equivale a se decidir contra a percepção sensorial direta, em favor dos assim chamados processos intelectuais superiores, ou seja, lembranças, reflexões, inferências; a determinar, por exemplo, que a paternidade é mais importante que a maternidade, embora não seja, como esta, verificável pelo testemunho dos sentidos, e por isso o filho deve ter o nome do pai e receber sua herança. Ou a afirmar que: “Nosso deus é o maior e o mais poderoso, embora seja invisível como o vento e a alma”. (...)

No desenvolvimento da humanidade, a “sensorialidade” foi gradualmente sobrepujada pela intelectualidade e os seres humanos se sentiram orgulhosos e elevados por cada um desses avanços. (...) A religião que teve início com a proibição de fazer uma imagem de Deus evolui cada vez mais, ao longo dos séculos, para uma religião das renúncias instintuais.

FREUD, Sigmund. Moisés e o monoteísmo. In: Obras completas. vol. 19. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. p. 156 a 164.


VOYEURISMO, EXIBICIONISMO, ESCOPOFILIA

 

         O voyeurismo é uma manifestação desviante da sexualidade que implica olhar sem ser visto a fim de obter um gozo.

         É nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905) que Freud aborda como psicanalista o campo das perversões e especifica em que circunstâncias “o prazer escópico se converte numa perversão:

(a)  quando se limita exclusivamente às partes genitais;

(b) quando está associado à superação da repugnância (voyeurs: expectadores das funções excrementícias);

(c)  quando recalca a finalidade sexual normal, em vez de a preparar”.

Ulteriormente, em Pulsões e os destinos da pulsão (1915), Freud propôs uma elaboração metapsicológica da pulsão de olhar, expondo os pares voyeur-exibicionista e a transformação da atividade em passividade[1]. (...)

Ao apropriar-se do outro como imagem, o voyeur faz dele o seu objeto de gozo, ao passo que ele próprio permanecerá imune em sua intimidade. Não busca troca nem relação, mas uma captação sexual apossando-se da imagem do outro contra a sua vontade.  O objetivo perseguido não é somente a visão das partes do corpo interditadas pelo pudor e a cultura, mas, no horizonte de seu desejo, o retalhamento do corpo. Trata-se de olhar o que é proibido, a fim de destruir a integridade corporal da pessoa, substituindo a imagem ordenada e coesa por seu desmembramento. (...)

O voyerismo, ao fazer do outro uma imagem, objeto de inveja e cobiça, parece testemunhar também sobre o desígnio espetacular próprio da sociedade ocidental. Ver a todo o preço é um imperativo que se confunde, aliás, com os objetivos de domínio da ciência.

MIJOLLA, Alain de. Dicionário internacional de psicanálise. Volume II M-Z. Rio de Janeiro: Imago, 2005. Verbete Voyerismo. p. 1969.

 

A impressão ótica continua sendo o caminho pelo qual a excitação libidinal é despertada com mais frequência, e a seleção natural conta com a viabilidade desse caminho (...), ao fazer o objeto sexual se desenvolver no sentido da beleza. A ocultação do corpo, que cresce juntamente com a civilização, mantém desperta a curiosidade sexual, que busca completar para si o objeto sexual desvelando suas partes ocultas, mas que pode ser desviada ("sublimada") para o âmbito artístico, quando se consegue retirar seu interesse dos genitais e dirigi-lo para a forma do corpo em seu conjunto. É natural que a maioria das pessoas normais se detenha, em alguma medida, nessa meta sexual intermediária do olhar sexualmente matizado; isso lhes dá, inclusive, a possibilidade de guiar certo montante de sua libido para metas artísticas elevadas. Mas o prazer em olhar se torna perversão: a) quando se limita exclusivamente aos genitais; b) quando está ligado à superação do nojo (voyeurs: espectadores das funções excretoras); c) quando, em vez de preparar, reprime a meta sexual normal. Esse último caso ocorre bastante entre os exibicionistas, que, se posso concluir a partir de várias análises, mostram os genitais para, em troca, ver os genitais do outro. Na perversão em que o indivíduo se empenha em olhar e ser olhado aparece uma característica muito curiosa, que nos ocupará mais intensamente na próxima aberração: a meta sexual está presente em configuração dupla, em forma ativa e passiva. A força que se opõe ao prazer em olhar, e que eventualmente é suplantada por este, é o pudor (com antes sucedeu como o nojo). (...)

         Pesquisa sexual infantil. O instinto de saber. Na mesma época em que a vida sexual da criança atinge seu primeiro florescimento, dos três aos cinco anos de idade, também começa a aparecer aquela atividade que se atribui ao instinto de saber ou de pesquisa. O instinto de saber não pode ser incluído entre os componentes instintuais elementares nem ser subordinado exclusivamente à sexualidade. Sua ação corresponde, por um lado, a uma forma sublimada de apoderamento, e, por outro lado, ele trabalha com a energia do prazer de olhar. Mas suas relações com a vida sexual são particularmente significativas, pois a psicanálise nos ensinou que o instinto de saber das crianças é atraído, inopinadamente cedo e com imprevista intensidade, pelos problemas sexuais, e talvez seja inclusive despertado por eles.

FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Obras completas. vol. 6. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p. 49, 50, 51 e 103.



[1] Prazer no voyerismo, isto é, prazer na atividade de olhar, transformado em prazer exibicionista, isto é, prazer na passividade de ser olhado.


IMAGEM E NARCISISMO EM FREUD E LACAN

 

O lugar central da imagem no narcisismo, lugar que talvez se tenha subestimado em proveito do caráter egoísta e autônomo do comportamento, já sobressaía nitidamente na versão mais conhecida do mito, a de Ovídio, onde não se fala de outra coisa senão de "ilusão sem corpo" (spem sin corpore), de "imagem fugaz" (simulacra fugacia) e de "reflexo" (imaginis umbra). E quando lemos que Narciso amava uma imagem ignorando ao mesmo tempo sua natureza e a quem pertencia, pressentimos por certo que o reconhecimento dessa imagem resultará de uma elaboração que envolverá necessariamente um juízo externo, o único apto a identificar a imagem de seu dono. Assim, lemos nas Metamorfoses: " ... Ele se apaixona por uma ilusão sem corpo (...), sem suspeitar que deseja a si mesmo; que vê? Ele o ignora: mas o que vê o consome; o mesmo erro que lhe engana os olhos os excita. Crédulo menino, por que te obstinas tanto em captar uma imagem fugaz? O que buscas não existe; o objeto que amas, basta que te vires e ele se desvanecerá." E um pouco adiante: "...Mas esse menino, sou eu; compreendi isso, e minha imagem (imago) não me engana mais; ardo de amor por mim mesmo. Inflamo a chama que carrego em meu peito."

Fascinado por sua própria imagem, Narciso ilustra magistralmente o momento de captação do sujeito pelo reflexo especular que Lacan descreve em Le stade du miroir; mas, diferentemente do que se passa quando dessa fase - em que o infans sofre de certo modo uma dupla identificação: por um lado com a imagem virtual e, sob ela, por outro lado, com a da espécie -, o personagem de Narciso, na ignorância de toda referência externa, mergulha numa visão amorosa cujo colorido passional expressa uma total confusão entre o eu e seu modelo. De fato, a imagem especular circunscreve de certo modo o lugar de projeção do eu, e este ganha consistência a partir da relação com o outro na percepção de uma forma e no afeto de um olhar. Sem essa relação, o sujeito cai na sideração de uma imagem "megalomaníaca" de si mesmo, imagem que o fita por sua vez num jogo de espelhos face a face que se refletem infinitamente.

Se Freud não centrou explicitamente o narcisismo em torno da problemática da imagem de si mesmo, a questão da passagem do autoerotismo para o narcisismo faz, contudo, alusão a ela. De fato, um artigo de Rank publicado em 1911, Une contribution au narcisisme, já apresentava o narcisismo como uma transição necessária entre o autoerotismo e o amor objetal, narrando, em apoio à sua tese, os sonhos de uma paciente. exclusivamente organizados em torno da visão e da avaliação de sua imagem.

Sem levar a investigação mais à frente, os dois tipos de escolha amorosa repertoriados por Freud - a escolha por apoio ou anaclítica, segundo o modelo das pessoas que dispensaram à criança os primeiros cuidados, e a escolha narcísica, segundo a semelhança que o objeto guarda com o sujeito - implicam necessariamente a projeção de representações mentais, dentre as quais a imagem de si que se prende mais particularmente à escolha de objeto narcísica. "Amar a si mesmo" ou "tomar a si mesmo como objeto de amor" equivale então a apaixonar-se por sua própria imagem e implica, portanto, que esta responda à questão freudiana da passagem do autoerotismo ao narcisismo; essa "nova ação psíquica" que viria se acrescentar ao autoerotismo inverteria as próprias condições da construção da imagem de si, cuja dinâmica aparece agora claramente explicada pela experiência do estádio do espelho. Assim Lacan, comentando o artigo de Freud em seu Seminário 1, Os escritos técnicos de Freud, pôde escrever: "(...) No desenvolvimento do psiquismo, aparece algo de novo cuja função é dar forma ao narcisismo. Não significa isto marcar a origem imaginária da função do eu?"

Indissociável da constituição da imagem de si mesmo, o narcisismo representa sua modalidade de investimento, na medida em que se pode dizer de um sujeito não apenas que ele ama a si mesmo, mas também que ama a si mesmo através do outro, em particular quando esse outro se apresenta como a projeção de um complexo separado do sujeito. Este cai a partir de então num amor quase obsessivo, de que não consegue se livrar facilmente, como por exemplo aquele que o estudante Nathanael, de O homem de areia de Hoffmann, dedica à boneca Olympia, e que Freud analisa em O estranho (1919). O amor narcísico, sejam quais forem suas variantes, teria assim por característica só se voltar para o objeto em função das semelhanças que com portaria com o sujeito, semelhanças que resultariam da projeção de um complexo patológico, de um modelo ideal ou de uma representação nostálgica, e que fariam, para citar Freud, com que "aquele que é por ele atingido se tornasse estranho ao objeto de amor real". Sem dúvida podemos perceber também claramente aí o processo projetivo, que permite ao sujeito evitar o confronto com a diferença radical do outro; e o narcisismo, de que o sujeito só a muito custo consegue se livrar, resultaria assim de urna menor economia na transformação efetiva da realidade (Wirklichkeit), tarefa que Freud atribui à humanidade. Mas o abandono da onipotência narcísica sob a pressão dessa mesma realidade não se efetua sem sofrimento; e podemos compreender que um sujeito lançado ao mundo só possa se aproximar dele tentando reencontrar aí - ou mesmo imprimir aí - sua própria imagem, no intuito de salvaguardar esse estado de plena autonomia que lhe proporcionara plena satisfação.

KAUFMANN, Pierre. (Org.) Dicionário enciclopédico de psicanálise. O legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, (s.d.) Verbete Narcisismo. p. 351 a 352.


O ESTRANHO (UNHEIMLICH) E O HOMEM DE AREIA, DE E.T.A HOFFMANN

 

Em língua alemã, o termo "das Unheimliche" tem múltiplas consonâncias que não possui em muitas outras línguas. De fato, o adjetivo "unheimlich"', de uso corrente, revela sentimentos paradoxais, e alia o familiar - heimlich - e o não familiar - un-heimlich -, ou seja, o estranho. (...)

Freud diz que há muito tempo está intrigado com os sentimentos que se ocultam por trás da expressão unheimlich. À primeira vista, o termo se refere ao assustador, à angústia ou ao pânico. Mas, para ele, unheimlich não remete apenas a um sentimento de angústia, e deve conter um "núcleo" mais específico que sem dúvida se oculta no inconsciente. Freud busca esse "núcleo" em duas direções, primeiro na etimologia e depois nas situações que desencadeiam esse tipo de impressão. Ele começa por revelar que o termo é de uso cor rente na língua alemã e que não tem um verdadeiro equivalente nas outras línguas. No Brasil, optou-se pela tradução O Estranho. (...)

Em língua alemã, ainda segundo Freud, o estudo etimológico revela que unheimlich é o oposto de heimlich, e heimlich é o familiar, o íntimo, o conhecido, que evoca o lar. Mas o termo heimlich tem também o significado de secreto, oculto, dissimulado, e mesmo perigoso, de modo que a acepção acaba por incorporar seu contrário unheimlich. De fato, designa-se igualmente como unheimlich o que deveria permanecer secreto, mas que emerge, manifesta-se. Assim, na linguagem corrente, passamos imperceptivelmente de heimlich para o seu contrário unheimlich: “Heimlich é, portanto, uma palavra cujo significado evolui em direção a uma ambivalência, até acabar por coincidir com seu contrário unheimlich. Unheimlich é de algum modo uma espécie de heimlich.” (Freud)

Freud se pergunta em seguida quais são as pessoas, as situações ou as coisas suscetíveis de despertar em nós a impressão de "estranho". Segundo ele, o caso por excelência se produz quando não sabemos se estamos lidando com um ser vivo ou morto, e muitos contos fantásticos se fundamentam nesse sentimento inquietante. Por exemplo, O homem de areia, de E. T. A. Hoffmann, é particularmente ilustrativo desse ponto de vista, pois vemos ali o herói, Nathanael, apaixonar-se pela boneca de cera Olímpia, que ele não sabe se é um ser vivo ou inanimado, tema retomado por Offenbach em sua ópera Os contos de Hoffmann. Além disso, Nathanael experimenta a mesma incerteza angustiante em relação a Copelius, pois não sabe se Copelius é também o temido Homem de Areia, a tal ponto que o herói do conto tem um ataque de loucura quando vê Copelius voltando: e então, tomado de angústia, ele se mata, jogando-se do alto de uma torre. Porém, segundo Freud, a mais forte impressão de "estranho" nesse conto fantástico se refere ao personagem do Homem de Areia, por que ele ameaça arrancar os olhos das crianças. O temor de perder a vista não é apenas uma impressão intelectual; de um ponto de vista psicanalítico, trata-se mais da lembrança de uma angústia infantil terrificante ligada à angústia de castração. Em outras palavras, o Homem de Areia representa para Nathanael o pai assustador cujo filho teme a castração, temor que remete ao mito do Édipo no qual este se pune furando os olhos.

QUINODOZ, Jean-Michel. Ler Freud. Guia de leitura da obra de S. Freud. Porto Alegre: Artmed, 2007. p. 185 a 187.


A QUESTÃO DAS IMAGENS EM PLATÃO:

O SIMULACRO E A MÍDIA

 

         Simulacrum é a tradução latina do eídolon grego. Não é errado, portanto, vertê-lo por sua vez à palavra imagem. No entanto, o eídolon, no uso que precisamente Platão faz dessa palavra no Teeteto e na República, tem três acepções afins entre si: em primeiro lugar, é a imagem, a representação de uma coisa; em segundo lugar, constitui sua réplica ou simulacro; por último, a pretensão ilusionista que confunde a réplica ou o simulacro do mundo com a sua realidade converte essa mesma realidade na ficção de um espetáculo, na irrealidade da experiência e da vida, definidas como pura negatividade do singular, limitado e intranscendente.

         Podemos distinguir essas três acepções com novos conceitos. O da representação de uma coisa por meio de um signo ou uma imagem, através da qual se mantém uma relação interativa entre ela e o representado no meio de uma experiência. O simulacro como aquela representação que compete ontologicamente com o ser do representado, o sobrepuja, elimina e finalmente substitui, para se converter no único ser objetivamente real. Por fim, espetáculo remete etimologicamente a specere, à contemplação humana, e refere-se, por conseguinte, ao caráter expositivo dessa representação, sua destinação a ser exibido e instaurado no sentido específico que, todavia, lhe é conferido por seu caráter de representação ou duplicação da realidade, não de sua experiência ou de seu reconhecimento.

         Simul, a raiz verbal de simulacro, significa precisamente re-(a)presentar no sentido de simulação, da aparência externa do que é, ou então copiar exatamente ou imitar a realidade. Essa dimensão teatral, ou, mais propriamente, cenográfica, das imagens como simulacros, simulações, dissimulações na vida humana e nas coisas é inerente ao significado do eídolon. É inerente precisamente a uma das narrações originais que definiram a filosofia como experiência esclarecedora, conhecimento crítico da existência humana e do mundo, como ilustração: o mito da caverna de Platão. Nesse relato, o eídolon aparece ao mesmo tempo em sua qualidade de imagem ou ícone, e como ídolo, simulacro e espetáculo do mundo.

         Não é necessário assinalar, a propósito do mito platônico da caverna, o duplo contexto em que se insere, nos livros da República: por um lado, a utopia de uma sociedade ideal, concebida sob o signo da liberdade humana; por outro, o do problema filosófico do conhecimento. Ambos os aspectos definem um objetivo crítico, ou antes, um objetivo ilustrador.

         A imagem que define o dilema do conhecimento e da liberdade humana é, por enquanto, misteriosa. A lenda platônica começa numa grande caverna, símbolo maternal ligado aos poderes do subsolo. No entanto, não é a dimensão mitológica dos poderes femininos da noite e da terra e seu significado cultual que deve ser sublinhado, por enquanto, nesse contexto, mas seu também ambivalente significado filosófico como metáfora das origens da sociedade, da cultura e da ordem da dominação humana.

         No fundo da gruta existe, de acordo com a descrição platônica, uma comunidade de homens acorrentados. Eles se acham submetidos a seu trabalho de escravos. Todavia, às suas costas ergue-se um muro alto, que os separa da única saída da caverna. Reinam as trevas e tudo faz imaginar uma existência imersa na mais desesperante miséria. Não obstante, detrás do muro tem lugar uma estranha atividade. Ali se encontram outros homens, que acenderam uma grande fogueira e parecem ter como única incumbência fazer desfilar sobre a borda do muro toda espécie de artefatos, ao mesmo tempo que emitem vozes. O resplendor do fogo lança sobre a parede do fundo da caverna as sombras daqueles objetos. Porém os escravos estão de tal sorte acorrentados, que não podem perceber nem os homens que agem do outro lado do muro, nem os estranhos objetos que colocam sobre ele. Só vêm as sombras e ouvem as vozes da caverna. “Esses homens se parecem conosco”, afirma o filósofo.

         Aquelas sombras e sons espectrais, os eídolon ou ícones, ídolos ou representações ideológicas, seriam, para os escravos, toda a realidade. No entanto, precisamente, essa pretensão ontológica que o meio caverna confere à irrealidade das sombras as distingue como simulacros. Por sua vez, a irrealidade da existência humana convertida no espelho da indefinida reprodução dos simulacros se confunde com a noção de espetáculo. (...)

         Sabemos estatisticamente que o homem moderno passa uma parte importante de sua existência “diante” das telas. “Passar” não é a palavra adequada. Sabemos que essa contiguidade possui uma significação profunda para a existência individual. A tela são seus olhos e sua voz interior, e o contato íntimo com essas imagens conserva algo daquela relação íntima do homem com o divino, que distinguia o cristão medieval. Vivemos de certo modo na e da tela, e nos arrancarem do mundo que ela apresenta significaria um cruel castigo, algo como a condenação a uma terrível solidão. (...)

         O simulacro (...) se revela (...) como aquela representação, ou antes aquela duplicação técnica da realidade que, por suas características técnicas de difusão maciça, de seu efeito ilusionístico e de seu consenso virtualmente universal excede qualquer valor estritamente representativo para adquirir o status de uma realidade mais verdadeira do que a própria experiência subjetiva e individual do real. (...)

         A realidade – se chamarmos por esse nome a sucessão temporal de imagens e informações que se sucedem indefinidamente no interior da tela – aparece, ao mesmo tempo, na experiência subjetiva midiaticamente programada como a irrealidade de um sonho, como a ficção do mundo convertido em espetáculo. Não obstante, inclusive quando me custa crer nele, identificar-me com esse grande mundo programado pela tela pequena, e ainda que me negue interiormente a assumir sua ficção como a realidade do mundo, objetivamente falando, não há outra experiência consensualmente compartilhada privilegiada o bastante para constituir uma possível contrapartida ou sua alternativa.

         Protestaremos em vão que esses olhos do mundo que são as telas da mídia nos usurpam, dia a dia, um pedaço da nossa visão, pois o simulacro midiático é universal e, diante do reino absoluto da sua irrealidade, nossa existência e nossa experiência particulares se diluem como a nulidade de um átomo na infinitude do cosmos. (...)

         A dimensão fundamental da reprodução da realidade pela mídia (...) reside (...) em seu valor ontológico, como princípio gerador do real. Reagimos a seus estímulos com maior intensidade do que diante da realidade da experiência imediata. Um acontecimento casual: escândalos, crimes ou uma palavra de ordem política. Ao reproduzi-lo como imagem midiática, se converte num acontecimento universal. Não importa quão insignificantes possam ser suas características particulares. Um acidente casual ou o sorriso de um presidente adquirem as conotações metafísicas de uma realidade essencial, assim que se reproduzem em imagens da mídia e, na fictícia grandeza além de toda escala humana (...), podem apaziguar conflitos, organizar guerras e transformar decisivamente o mundo. Inversamente, um fato de vital importância se perde na noite do nada e do inconsciente na medida em que não é reproduzido como espetáculo do mundo.

         No reino do simulacro, a condição ontológica do ser de uma coisa é sua transformação em imagem. Pois só a imagem é real.

SUBIRATS, Eduardo. A cultura como espetáculo. São Paulo: Nobel, 1989. p.  59 a 61; 70 a 74.


ILUSÃO EM FREUD

 

Não obstante sua indiscutível falta de comprovação, as ideias religiosas exerceram fortíssima influência sobre a humanidade. Esse é um novo problema psicológico. Devemos perguntar: em que consiste a força interna dessas doutrinas e a que de vem sua eficácia, que independe da aceitação racional?

Creio que já preparamos suficientemente a resposta a ambas as perguntas. Ela surge quando consideramos a gênese psíquica das ideias religiosas. Estas, que se proclamam ensinamentos, não são precipitados da experiência ou resultados finais do pensamento: são ilusões, realizações dos mais antigos, mais fortes e prementes desejos da humanidade; o segredo de sua força é a força desses desejos. Como já sabemos, a terrível impressão deixa da pelo desamparo da criança despertou a necessidade de proteção - proteção através do amor -, fornecida pelo pai; e a compreensão de que esse desamparo continua por toda a vida motivou o apego à existência de outro pai - agora mais poderoso. Mediante a benévola ação da Providência divina, a angústia ante os perigos da vida é atenuada; o estabelecimento de uma ordem moral universal assegura o cumprimento da exigência de justiça, que tão frequentemente deixou de ser cumprida no interior da cultura humana; a continuação da existência terrena numa vida futura fornece a moldura especial e temporal em que devem se consumar essas realizações de desejos. Dentro dos pressupostos desse sistema são elaboradas respostas aos enigmas da humana ânsia de saber, como o da origem do mundo ou o da relação entre o físico e o psíquico. É um enorme alívio, para a psique individual, que os conflitos da infância originados do complexo paterno (e nunca inteiramente superados) lhe sejam tirados e levados a uma solução aceita por todos.

Se afirmo que todas essas coisas são ilusões, tenho que delimitar o sentido da palavra. Uma ilusão não é idêntica a um erro, tampouco é necessariamente um erro. A opinião de Aristóteles, de que os vermes nascem da sujeira - partilhada ainda hoje pelo povo ignorante -, era um erro, assim como a de uma geração anterior de médicos, segundo a qual a tabes dorsal (Neuropatia provocada pela degeneração da medula espinhal, resultante do não tratamento da sífilis) resulta de excessos sexuais. Seria incorreto chamar de ilusões esses erros. Por outro lado, foi uma ilusão, da parte de Colombo, achar que havia descoberto um novo caminho marítimo para a Índia. É bastante clara, nesse erro, a participação de seu desejo. Pode-se designar como uma ilusão a afirmação de certos nacionalistas, segundo a qual os indo-germanos são a única raça humana capaz de civilização, ou a crença, que somente a psicanálise destruiu, de que a criança é um ser desprovido de sexualidade. É característico da ilusão o fato de derivar de desejos humanos, nesse aspecto ela se aproxima do delírio psiquiátrico; mas, ainda não considerando a mais complicada estrutura do delírio, também se diferencia dele. O que destacamos como essencial no delírio é a contradição com a realidade; a ilusão não tem de ser necessariamente falsa, isto é, irrealizável ou contrária à realidade. Uma garota de classe média, por exemplo, pode ter a ilusão de que um príncipe virá buscá-la. É algo possível, já aconteceram casos assim. Bem menos provável é que venha o Messias e dê início a uma nova Idade de Ouro; conforme a atitude pessoal daquele que julga, ele classificará essa crença como ilusão ou como análoga ao delírio. Exemplos de ilusões que se tornaram realidade não são fáceis de encontrar. Mas a ilusão dos alquimistas, de poder transformar qualquer metal em ouro, poderia ser uma delas. O desejo de ter muito ouro, tanto ouro quanto possível, foi amortecido por nossa atual compreensão do que determina a riqueza, mas a química já não vê como impossível a transformação dos metais em ouro[1]. Desse modo, chamamos uma crença de ilusão quando em sua motivação prevalece a realização de desejo, e nisso não consideramos seus laços com a realidade, assim como a própria ilusão dispensa a comprovação.

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. In: Obras completas. vol. 17. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.  p. 265 a 268.



[1] A partir de 2015, no CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear) o maior acelerador de partículas do mundo, os cientistas têm conseguido transformar chumbo em ouro. Esta alteração, sonhada milenarmente pelos alquimistas, ocorreu em diversas experiências, mas a transformação microscópica ainda só permanece alguns microssegundos, desfazendo-se em seguida. 


A “MÁQUINA DE NARCISO”

 

Já se levantou a hipótese de uma incompatibilidade entre Narciso e a máquina. Assim, Hans Sachs[1], indagando-se nos anos 30 sobre as razões que teriam impedido os gregos de desenvolver uma técnica das máquinas quando tinham conhecimentos para tanto, rejeitava as abordagens sociológicas, para ficar com a explicação de que a máquina teria contrariado, por se opor à libido corporal, um princípio básico da civilização grega: o narcisismo.

Sem querer entrar no mérito da hipótese de Sachs, assinalamos, entretanto, que a sociedade pós-moderna, a civilização pós-industrial, tem gerado novas formas de poder assentadas precisamente naquilo que os gregos teriam repudiado, ou seja, a união de Narciso com a máquina. Apenas Narciso não mais aqui o herói dionisíaco que, no dizer de Rilke, “sonha com o paraíso” e, ao lado de Orfeu, contrasta com civilizadores prometeicos. Narcisismo é agora uma extensão das noções freudianas (narcisismo primário e secundário), que se põe a serviço de um novo modo de organização do espaço social através de imagens, através de uma mobilização exacerbada do olhar. (...)

Indagado por uma pesquisadora sobre o que gostaria de ver na televisão, um jovem engraxate da favela da Rocinha (Rio) responde: "Eu". Isso é logo interpretado como uma reivindicação de espaço por parte de "meninos, como ele, na faixa dos 10 aos 18 anos, para os quais não existe nada em termos de teatro, lazer e cinema".

A interpretação encaminha claramente a resposta do entrevistado na direção dos interesses de programação da instituição televisiva a que se vincula a pesquisadora. Seria a manifestação do desejo de um telespectador insatisfeito com a oferta habitual de conteúdos da televisão. O atendimento à demanda ratificaria as linhas gerais do juízo de função psicossocial que a organização televisiva costuma fazer sobre si mesma.

Entretanto, para melhor entender a natureza do fenômeno da televisão, começaremos tomando ao pé da letra a resposta do pequeno engraxate: ele desejaria ver a si mesmo enquanto indivíduo concreto - não como índice de uma abstrata média de telespectadores infantojuvenis - no vídeo. Desejaria ver a sua própria imagem refletida nesse moderno espelho eletrônico e por ele multiplicada com tal intensidade que alguma modificação viesse a ocorrer no seu estatuto social de engraxate da Rocinha ou que algo pudesse compensar uma provável autoimagem negativa.

É tão simples assim. A fala sincera de uma criança é capaz de apontar com mais clareza para as raízes profundas da fascinação que sobre o homem contemporâneo exerce o “espelho” televisivo.

A irresistível fascinação do "ver-se" é antiquíssima. E mitológica, como atesta o paradigma lendário de Narciso. Na versão que Ovídio apresenta em suas Metamorfoses, Narciso (filho do deus Céfiso e da ninfa Liríope), para bem observar a advertência do adivinho Tirésias, "viveria melhor se não se olhasse". Belíssimo, chegado à idade adulta, Narciso torna-se objeto da paixão de grande número de moças e de ninfas, mas sempre insensível ao amor. Os pedidos de vingança das mulheres atraem para ele as iras de Nêmesis. Um dia, Narciso se inclina sobre uma fonte para matar a sede. Percebe então seu rosto e dele imediatamente se enamora. Daí em diante, absolutamente indiferente ao mundo, debruça-se sobre a sua própria imagem e se deixa morrer.

Antes de abordar a questão do simulacro, do duplo de si mesmo que tanto fascina Narciso, convém passar pelo fenômeno do olhar, que tem, desde a Antiguidade grega, um laço imaginário com a sexualidade. Uma moeda dos indiceutas (povo ibérico do II século a.C.) representa um cavalo alado, cuja cabeça é formada por um anjo sentado que, estendendo os braços, se toca os pés. O olho do animal é desenhado pelo phallus do anjo. Para Nelli, desenvolvendo-se a leitura do símbolo, chega-se à proposição seguinte: "O olho é um meio de possuir - ou de ser possuído - completamente análogo aos órgãos sexuais, que possuem e são possuídos"[2].

O olhar é tido como suscetível de evocar sentimentos de temor, mistério e amor, do mesmo modo que a comunhão sexual. Dentro dessa linha de interpretação é que sábios gregos buscavam as raízes etimológicas de Eros, também um deus punidor de Narciso, no verbo grego oraô (ver).

Recordemos brevemente a narrativa mitológica sobre Eros e Psyché, tal como é fixada por Apuleio num conto das Metamorfoses. Psyché, filha de rei, tinha duas irmãs. Todas eram muito bonitas, mas a beleza de Psyché era excepcional, objeto de grande admiração. E também de medo: ninguém quis se casar com ela, ao contrário do que aconteceu com as irmãs. O rei ficou desesperado. Seguindo, porém, a indicação do oráculo, conduziu a filha ao alto de um rochedo, onde a deixou. A moça foi arrebatada pelo vento, adormeceu, acordando no jardim de um palácio magnífico. Foi acolhida por vozes que a guiaram e se puseram a seu serviço. À noite, apareceu-lhe um marido, sem lhe revelar o nome e advertindo-a de que jamais deveria olhar para ele. Ela viveu feliz dessa forma até que um dia (depois de uma visita à família) cedeu à tentação e olhou para o rosto do marido, à noite. Descobriu um belíssimo rapaz (tratava-se de Eros, o deus do Amor), que, no entanto, a abandonou como punição por ter violado o tabu. Psyché passa por mil tormentos, perseguida por Afrodite, mãe de Eros, até a reconciliação final, sob os auspícios de Zeus.

Na lenda, transparece o temor antigo de que a mulher tivesse o mesmo olhar da Morte, mas também o mistério do olhar como caminho de fusão com o outro. Olhando-se, Narciso foi arrebatado por sua própria imagem; o grande receio de Eros era o de ser olhado por sua mulher.  (...)

A imaginação tem como equivalentes o ato de ver e o fato de ser visto. O fenômeno da fascinação consiste precisamente em saber que se é visto com intensidade, ou melhor, em se ver sendo visto. Mas é preciso, para evitar o poder excessivo da visão, que "os parceiros do olhar", sujeito e objeto, tenham a mesma densidade, o mesmo peso na relação de afrontamento em que implicam o ver e o ser visto. Quando há desequilíbrio de poder na relação, o olhar de um pode objetivar, congelando, o movimento livre do outro, situação que pode ser imaginariamente atravessada na forma do mito das Górgonas, capazes de petrificar aqueles que as encarassem de frente. No imaginário, o olhar do outro é capaz de nos congelar como objeto, objetivar-nos e, por aí mesmo, dominar. Eros não queria ser olhado, mas olhava. Psyché conquista, a duras penas, a possibilidade de ver a reciprocidade no olhar.

Essas narrativas mitológicas, de um modo ou de outro, apontam para a visão humana como via constitutiva do estado amoroso ou da sexualidade. A história de Narciso é modelar. J’aime!... Et qui donc aimer autre chose que soi-même...?" (Eu amo, eu amo, e quem pode amar outra coisa que a si mesmo?), verseja Valéry.[3] Efetivamente, o homem só pode amar a si mesmo ou seu semelhante (com o qual possa se identificar) ou, então, um ser transcendente capaz de essencializar a sua humanidade.

Mas, para ser social (ou ritual), esse "amor a si mesmo" obriga-se à troca com um outro, tomado objeto e experimentado como uma diferença. Narciso é punido por violar a regra da doação recíproca (não aceitando o outro corpo, o corpo da ninfa) e entregar-se, incestuosamente, à troca com sua própria imagem: "Naisse donc entre nous que la lumière unit/ De grâce et de silence un échange infini!" ("Nasça, pois, entre nós, que a luz une/ De graça e de silêncio, uma troca infinita"), escreve Valéry.[4] Narciso simplesmente rejeita os "recursos de amor da diferença" oferecidos pela ninfa: "Soupçonnez-vous, bercé d'une vaine espérance/ Les ressources d'amour de notre différence".[5] Recusa-se, na verdade, na mesma linha de Orfeu e Dionísio, à separação entre sujeito e objeto do afeto, opondo-se, assim, a Eros enquanto força civilizadora. Narciso implica a aspiração a uma ordem própria, em que consciência e natureza se fundem, vida e morte não se separam. (...)

Se se considerar (a partir da teoria psicanalítica) essa imagem (narcisicamente amada) como um ideal da eu (uma instância resultante do narcisismo e da identificação com os pais, a que o indivíduo tenta conformar-se no processo de constituição de sua identidade, um lugar de exigência, pertencente à ordem do simbólico), pode-se então dizer que, no estado amoroso o objeto amado toma o lugar do ideal do eu. (...)

Narciso pode ser também considerado como aquele que mata a verdade de si mesmo (sua realidade como indivíduo concreto) e morre em sua própria imagem, o seu duplo. Aqui se dispensam as hipóteses de interiorização profunda do sujeito (da qual vive toda a psicologia), de existência de aparelho psíquico, em favor da concepção de um jogo de sedução: o aparecimento do duplo (a imagem de si mesmo) desafia o real do sujeito (a unicidade, a singularidade, a originalidade) a existir, afastando-o de sua verdade, arrastando-o para o jogo ilusório das aparências. Pós-modernamente, essa sedução converte-se em fascinação: no universo de vertigem narcísica, que caracteriza a ordem telerrealista da contemporaneidade, dá-se essa autonomia da ilusão, mas agora desligada da cosmogonia mítica e voltada para a operacionalidade da Organização.

Nesse jogo (mortal) da imagem com o real, o olho fica em primeiro plano de importância, por ser o meio que registra e instaura a ilusão. Freud chega a observar que "o pensamento visual se aproxima mais dos processos inconscientes do que o pensamento verbal e é mais antigo do que este, tanto do ponto de vista filogenético como ontogenético"[6]. Édipo é um dos mitos fundamentais para o poder do Ocidente, exatamente porque expõe a pretensão de um olhar universal. Édipo Rei é uma tragédia da visão - ele pode ver tudo, mas não se vê. Ao cegar-se, no final, interiorizando a sua visão, ele ainda está na pretensão de "tudo ver", mesmo na escuridão. (...)

Como a imagem de Narciso no espelho, o simulacro é inicialmente um duplo ou uma duplicação do real. A imagem no espelho pode ser o reflexo de um certo grau de identidade do real, pode encobrir ou deformar essa realidade, mas também pode abolir qualquer ideia de identidade, na medida em que não se refira mais a nenhuma realidade externa, mas a si mesma, a seu próprio jogo simulador. Neste caso, o espelho deixa de ser algo que transcendentemente reflita, duplicando, o real, para tornar-se um espaço/tempo operacional, com uma lógica própria, imanente. Sem a necessidade de uma realidade externa para validar a si mesmo enquanto imagem, o simulacro é ao mesmo tempo imaginário e real, ou melhor, é o apagamento da diferença entre real e imaginário (entre o “verdadeiro” e o “falso”). De fato, um certo imaginário, tecnologicamente produzido, impõe o seu próprio real (o da sociedade industrial), que implica um projeto de escamoteação de outras formas de experiência do real.

SODRÉ, Muniz. A máquina de Narciso. Rio de Janeiro: Achiamé, 1984. p. 7 a 29.



[1] Hanns Sachs (1881–1947) fez parte da primeira geração de psicanalistas. Homem de confiança de Freud, integrou o chamado "Comitê Secreto", que zelava pela integridade e ortodoxia da doutrina psicanalítica. Foi pioneiro em reflexões sobre a aplicação da psicanálise à arte, literatura e cultura.

[2] NELLI, René. L’amour et les mythes du coeur. Paris: Hechette, 1975. p.198.

[3] VALÉRY, Paul. Cantate du Narcisse. Bibliothéque de la Pléiade, 1. p. 128.

[4] VALÉRY, Paul. Fragments du Narcisse. Bibliothéque de la Pléiade, 1. p. 128.

[5] VALÉRY, Paul. Cantate du Narcisse. Bibliothéque de la Pléiade, 1. p. 409.

[6] FREUD, Sigmund. Essais de psychanalyse. Paris: Payot, 1963.  p. 189.

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