Módulo 55

 O "MEDO DA MULHER" EM WINNICOTT E RANK




O “MEDO DA MULHER” EM WINNICOTT

 

A misoginia não faz parte do vocabulário utilizado por Winnicott; contudo, nos primeiros anos da década de 50, faz alusão as suas raízes ao escrever sobre o medo da mulher em um texto intitulado Some Thoughts on the Meaning of the Word ‘Democracy’, que foi publicado em 1950 em Human Relations:

“No trabalho analítico e em outras áreas afins, comprovamos que todos os indivíduos (homens e mulheres) experimentam um certo medo da mulher. Alguns indivíduos experimentam este medo em um maior grau que outros, mas podemos afirmar que ele é universal. Isso não significa que um indivíduo tenha medo de uma mulher em particular. O medo da mulher constitui-se em um poderoso agente na estrutura da sociedade que é responsável pelo fato de que em poucas delas as mulheres detêm o controle político. Ele também é o responsável pela imensa crueldade para com as mulheres, o que pode ser observado nos costumes adotados por quase todas as civilizações.

As raízes do medo da mulher são bem conhecidas. Relacionam-se ao fato de que na história precoce de cada indivíduo que se desenvolveu satisfatoriamente, que é sadio, e que foi capaz de descobrir-se, existe uma dívida para com uma mulher: a mulher que se devotou a este indivíduo quando bebê, cuja devoção foi absolutamente essencial para seu desenvolvimento saudável. A dependência original não é lembrada, e por isso a dívida não é reconhecida, exceto na medida em que o medo da mulher representa a primeira etapa deste reconhecimento” (Some Thoughts on the Meaning of the Word ‘Democracy’).

Em uma nota de rodapé Winnicott acrescenta:

“Não é este o lugar mais adequado para examinar em detalhes este problema, mas a ideia básica será mais fácil de entender se for enfocada de forma gradual:

1) Medo dos pais no início da infância.

2) Medo de uma figura combinada, uma mulher que possui a potência de um homem entre seus poderes (bruxa).

3) Medo da mãe detentora de um poder absoluto no começo da existência do bebê para proporcionar-lhe, ou não, os elementos essenciais para o estabelecimento precoce do self como indivíduo” (Some Thoughts on the Meaning of the Word ‘Democracy’).

Nos dois parágrafos que se seguem Winnicott tece comentários revolucionários (o que gera uma grande polêmica) a respeito da compreensão psicanalítica das razões pelas quais foi estabelecida a preponderância das sociedades patriarcais.

“As bases da saúde mental do indivíduo são estabelecidas desde o início, quando a mãe é dedicada apenas a seu bebê, e quando este é duplamente dependente dela porque não possui nenhuma consciência dessa dependência. A relação com o pai não apresenta esta qualidade. É por essa razão que um homem que, em um sentido político, tenha atingido o topo, é considerado pelo grupo de uma forma muito mais objetiva do que uma mulher que ocupa uma posição similar.

As mulheres frequentemente afirmam que, se controlassem o mundo, não haveria guerras. Existem motivos para duvidar da veracidade dessa afirmação, mas, ainda que fosse justificada, não implicaria que os homens e mulheres tolerariam o princípio geral segundo o qual estas últimas devessem ocupar as mais altas posições do poder político. (A Coroa, por estar fora ou além da política, não é afetada por estas considerações.)” (Some Thoughts on the Meaning of the Word ‘Democracy’).

Nos outros dois parágrafos Winnicott amplia esta ideia a fim de aplicá-la às ditaduras e aos grupos humanos que demandam líderes dominadores:

“... temos que considerar a psicologia do ditador, que se encontra no polo oposto a tudo o que a palavra ‘democracia’ pode significar. Uma das raízes da necessidade de ser um ditador pode ser a compulsão a lidar com o medo da mulher, cercando-a e agindo por ela. O curioso costume dos ditadores de exigir não somente obediência e dependência absolutas, como também ‘amor’, pode ser derivada dessa fonte.

Além do mais, a tendência dos grupos de pessoas em aceitar ou mesmo procurar por uma dominação real nasce do medo de ser dominado por uma mulher que só existe na fantasia. Esse medo os leva a buscar, e até a aceitar de bom grado, a dominação por um ser humano conhecido, sobretudo quando se trata de alguém que tomou para si o encargo de personificar e, consequentemente, limitar as qualidades mágicas da mulher detentora de todo o poder e que pertence à fantasia, e com a qual se tem uma dívida tão grande. O ditador pode ser destruído e, eventualmente, morrerá; mas a figura feminina da fantasia inconsciente primitiva não conhece limites para sua existência e para seu poder” (Some Thoughts on the Meaning of the Word ‘Democracy’).

Ao longo dos escritos de Winnicott são notados poucos pontos que se relacionam de uma forma tão explícita à política, embora sempre existam aplicações potenciais para suas teorias nesse campo. O medo da mulher é a contribuição oferecida por Winnicott à compreensão do tipo de tratamento dispensado às mulheres na grande maioria das sociedades. Embora seja potencialmente de enorme relevância, esta foi uma teoria que jamais elaborou.

Em um pós-escrito a uma coletânea de seus pronunciamentos radiofônicos, datado de 1957 e que recebeu o título de The Mother’s Contribution to Society, Winnicott coloca a importância do reconhecimento, por parte de cada indivíduo, do fato que é a dependência, e de como esse reconhecimento aplaca o medo.

“Uma vez mais, permitam-me destacar, o resultado de um reconhecimento como esse, quando ele vem, não será bem-vindo, muito menos aplaudido. O que resulta dele será a diminuição em nós de um medo. Se nossa sociedade protela o reconhecimento pleno desta dependência, que se constitui em um fato histórico no estágio inicial do desenvolvimento de cada indivíduo, resta um obstáculo ao progresso e à regressão, um obstáculo fundado no medo. Se não existir um verdadeiro reconhecimento da mãe, restará um leve medo da dependência. Este medo, por vezes, assumirá a forma do medo da mulher, ou do medo de uma mulher. Outras vezes assumirá formas não reconhecíveis tão facilmente, mas que sempre incluem o medo da dominação” (The Mother’s Contribution to Society).

Mais uma vez refere-se à necessidade que o ditador possui de dominar e à necessidade das pessoas de serem dominadas - uma consequência do não reconhecimento do fato da dependência.

“Infelizmente, o medo da dominação não faz com que os grupos humanos deixem de ser dominados; pelo contrário, empurra-os para uma dominação específica ou a que for de sua escolha. Na verdade, ao estudarmos a psicologia do ditador, esperaríamos encontrar, entre outras coisas, que ele, em seu esforço pessoal de tentar obter o controle sobre a mulher cuja dominação ele inconscientemente teme, tenta controlá-la, cercá-la, agir em seu lugar, demandando uma sujeição e um ‘amor’ absolutos.

Muitos estudiosos da história social pensam ser o medo da mulher uma poderosa razão para o comportamento aparentemente irracional do ser humano reunido em grupos, porém esse medo raramente conduz às suas raízes. Alcançando as raízes históricas de cada indivíduo, o medo da mulher transforma-se no medo do reconhecimento do fato que é a dependência” (The Mother’s Contribution to Society).

Alguns anos depois, em 1964, em um trabalho (This Feminism) apresentado à Progressive League, Winnicott resumidamente desenvolveu esses temas fazendo uso da palavra “mulher” a fim de designar “a mãe não reconhecida dos primeiros estágios de vida de todos os homens e mulheres” (This Feminism).

Esta é a maneira pessoal de Winnicott estabelecer uma diferença entre homens e mulheres. Em cada mulher habitam três outras:

“... precisamos encontrar uma nova forma de estabelecer a diferença entre os sexos. As mulheres têm uma relação com a mulher por meio da identificação com ela. Para cada mulher existem sempre três outras mulheres: (1) a bebê; (2) a mãe; (3) a mãe da mãe.

Nos mitos, constantemente nos deparamos com três gerações de mulheres, ou com três mulheres que exercem três funções distintas. Se uma mulher tem um bebê ou não o tem, ela está inserida nessa série infinita; ela é bebê, mãe ou avó, ela é mãe, bebê e a bebê da bebê... ao passo que o homem principia com um poderoso anseio de ser um. Um é um e único, e tudo o mais também deve ser assim.

O homem não pode fazer aquilo que a mulher faz, o que se confunde com a raça, sem que haja uma violação do conjunto de sua natureza.

...Mas um fato embaraçoso permanece para homens e mulheres. Cada um deles uma vez foi dependente de uma mulher, e por qualquer razão o ódio referente a esse fato tem que ser transformado em uma forma de gratidão se a maturidade plena da personalidade for alcançada” (This Feminism).

(...) Winnicott aponta para algo extremamente enigmático: “Ao morrer, um homem está morto, ao passo que as mulheres sempre foram e sempre serão.” (This Feminism).

ABRAM, Jan. A linguagem de Winnicott. Rio de Janeiro: Revinter, 2000. p. 100 a 103.


O “MEDO DA MULHER” EM RANK

 

O traço comum a todas as teorias infantis do nascimento e que também pode ser devidamente comprovado à luz da etnologia (mitos e, principalmente, narrativas fantásticas), é a negação do órgão sexual feminino, o que evidencia que tais teorias se fundam no recalcamento da lembrança do trauma do nascimento, que foi vivenciado precisamente ali. A esta fixação e má vontade em relação a essa função do órgão genital feminino como órgão genitor subjazem, em última análise, todos os distúrbios neuróticos da vida sexual adulta, como a impotência sexual e a frigidez feminina em todas as suas formas, mas que se manifestam mais particularmente em certos tipos de claustrofobia (acessos de vertigem), relacionados ao estreitamento ou alargamento da rua.

         As perversões que, segundo Freud, representam o lado positivo da neurose, remetem de modo decisivo à situação infantil primitiva.

RANK, Otto. O trauma do nascimento. São Paulo: Cienbook, 2016. p. 48 e 49.

 

Parece-me claro que o medo primitivo infantil, ao longo do desenvolvimento, concentra-se muito particularmente nos genitais, e precisamente por causa de sua relação obscuramente intuída (ou lembrada) factual e biológica com o nascimento (e com a concepção). E é compreensível, e mesmo óbvio, que justamente o órgão genital feminino, enquanto lugar do trauma do nascimento, logo se converta no principal objeto do sentimento de medo que se origina dele.

RANK, Otto. O trauma do nascimento São Paulo: Cienbook, 2016. p. 39.

 

            Um caso análogo é o do fetichismo, cujo mecanismo Freud já descrevera como sendo um recalcamento parcial, com formação substitutiva e compensatória; o recalcamento concerne muito regularmente aos órgãos genitais da mãe, no sentido de um substituto traumático do medo, e substituído por outra parte do corpo que provoca prazer, ou por um acessório estético que se relacione a ela (roupas, sapatos, espartilho etc.).

RANK, Otto. O trauma do nascimento. São Paulo: Cienbook, 2016. p. 50.

 

        O menino procura negar, por mais tempo possível, a existência do aparelho genital feminino, porque com isso ele pretende evitar a lembrança do pavor, que ainda consegue sentir em todos os membros do seu corpo, de atravessar esse órgão; ou seja, ele evita reproduzir a sensação de medo que ainda associa a essa lembrança. Parece-me que essa ideia pode ser reforçada pelo fato de a menina comportar-se da mesma forma negativa em relação aos próprios genitais (...). Essa atitude se manifesta através da chamada “inveja do pênis” (...). Ocorre que os dois sexos procuram negar e menosprezar os órgãos genitais femininos da mesma forma, porque ambos estão submetidos à influência da lembrança reprimida do órgão genital materno. A supervalorização do pênis, observada nos dois sexos – e explicada por Adler segundo a psicologia sexual escolar, como o sentimento de “inferioridade”, que não é nada secundário – revela-se, em última análise, como sendo uma reação contra a existência de um órgão sexual feminino em geral, do qual um dia fomos expulsos de forma dolorosa.

RANK, Otto. O trauma do nascimento. São Paulo: Cienbook, 2016. p. 53.

 

            Um recalcamento primitivo (...) pretende depreciar e renegar a mulher social e intelectualmente, justamente por causa de sua ligação original com o trauma do nascimento. Ao buscarmos trazer novamente à consciência a lembrança primitiva e reprimida do trauma do nascimento, também acreditamos reabilitar o valor da mulher, livrando-a da pesada maldição que recai sobre seus genitais.

RANK, Otto. O trauma do nascimento. São Paulo: Cienbook, 2016. p. 52.

 

            A configuração da dominação patriarcal na direção de sistemas políticos cada vez mais masculinizados é, portanto, um prolongamento do recalcamento primitivo que se volta cada vez mais, precisamente por causa da dolorosa lembrança do trauma do nascimento, para uma eliminação da mulher, até mesmo às custas de fazer da origem tão incerta do pai (semper incertus) a base de todo o sistema jurídico (nome, sucessão etc.) A mesma tendência em eliminar o mais completamente possível a participação da mulher no nascimento também aparece em todos os mitos em que o homem cria a primeira mulher como, por exemplo, na história da criação na Bíblia que, por assim dizer, colocou o ovo antes da galinha.

            Uma série de invenções têm por objetivo o reforço constante do poder paterno, da mesma forma que certas criações da civilização já bastante conhecidas procura ampliar continuamente a proteção contra a mãe. Pensamos principalmente na invenção de ferramentas e armas que imitam diretamente a forma do órgão sexual masculino que, muito tempo antes da civilização, em virtude da evolução biológica, era destinado a penetrar na frágil matéria feminina (mãe). Como, para o inconsciente, essa penetração sempre ocorre num grau muito insatisfatório, as tentativas realizadas nas substâncias substitutivas naturais (matéria) sempre são repetidas com meios cada vez mais aperfeiçoados, e mesmo contando com ferramentas formadas com o intuito de complementar as naturais (como mãos, pés, dentição). Esse aperfeiçoamento recebe seu impulso decisivo da libido materna, isto é, da tendência, eternamente insatisfeita, em penetrar completamente na mãe, o que, por sua vez, se coaduna ao notável fato de que o próprio pênis, em razão da angústia primitiva, não experimentou nenhum “prolongamento” semelhante com as demais ferramentas apresentadas para outros membros do corpo. (...) A matéria é substituída pela mãe. Com essa substituição feita a contragosto e que representa a primeira adaptação à vida civilizada, parece ter ocorrido uma aversão decisiva, e por meios puramente físicos, em relação à mulher enquanto objeto primeiro de suas inclinações libidinosas.

RANK, Otto. O trauma do nascimento. São Paulo: Cienbook, 2016. p. 94 e 95.

 

 

A NEGAÇÃO DO DESEJO FEMININO E O TABU DO ABORTO EM CALLIGARIS

O Supremo Tribunal Federal está ouvindo argumentos a favor e contra a descriminalização do aborto voluntário até a 12ª semana de gestação.

Na Folha de 29/6: de 2008 a 2017, no Brasil, 2,1 milhões de mulheres foram internadas por complicações de abortos clandestinos. O custo para o SUS foi de R$ 486 milhões. Que o leitor calcule o custo da morte, do desespero e do desamparo dessas mulheres.

Essa realidade à parte, tento resumir minha posição:

1. Ninguém é "a favor" do aborto —só se discute para decidir se ele tem que ser considerado um crime ou não;

2. Para alguns, o aborto é um crime contra a vida do feto. Para outros, a interdição do aborto é um crime contra a vida da mulher que engravidou contra sua vontade. Um aborto deixa cicatrizes psíquicas dolorosas na mulher que abortou, mas uma gravidez indesejada e levada obrigatoriamente a termo também deixa cicatrizes dolorosas — na mulher e no seu rebento.

3. A partir de quando há vida (e, para os religiosos, alma)? Para permitir a fecundação in vitro, decidimos que o embrião inicial não é um ser completo e pode ser descartado. A 12ª semana de gestação é o limite aceito nos países onde o aborto voluntário não é crime: tempo suficiente para a mulher descobrir que está grávida e que não deseja ter filhos (não naquele momento ou não com aquele pai).

3. Quem "defende a vida" deve se lembrar que estão em jogo aqui duas vidas: a do feto e a da mulher que engravidou.

Nesta altura da conversa, se não antes, sempre alguém comenta: "Ela devia ter pensado nas consequências antes de transar".

É bom, porque isso me leva imediatamente ao que mais me importa dizer hoje sobre a questão do aborto.

Declaro-me impedido de opinar sobre esse assunto. E acho que qualquer pessoa honesta e instruída deveria se declarar impedida de opinar sobre o assunto: todos impedidos, salvo as mulheres que abortaram ou que estão atualmente procurando um aborto.

Cuidado: não acho que, em geral, só devam legislar as pessoas interessadas na legalização de seus atos passados ou iminentes. Nada disso.

Mas o fato incontestável, no caso do aborto, é que todos, homens e mulheres, há 2.800 anos, absorvemos uma cultura que situa na mulher e no seu desejo a origem do mal, do pecado e da tentação —começou na mitologia grega, com a figura de Pandora, e piorou com a de Eva, na Bíblia judaico-cristã.

Em relação ao desejo feminino, nossa cultura adota várias estratégias de defesa.

Negamos que esse desejo exista e preferiríamos que a mulher se expressasse só na maternidade (sonhamos com uma mãe virgem, e qualquer maternidade nos parece "santa" porque "justifica" a nossa lubricidade —transamos, mas, veja bem, foi para procriar).

Paradoxalmente, para ilustrar a luxúria e sua punição no inferno, a figura que nossa cultura usa é quase sempre feminina. E a luxúria sequer é o fruto da relação da mulher com um homem, mas da mulher com um diabo (como no famoso tríptico "A Luxúria", de Bruegel, o Velho, 1538).

O desejo feminino, caso ele se manifeste, é responsável por nossa própria lubricidade, pois a mulher nos tenta —como o demônio.

Precisamos controlar o desejo feminino —pense na fantasia masculina trivial de ser aquele que "sabe" fazer gozar as mulheres, quanto, quando e como ele quiser.

Se não conseguirmos controlar o desejo feminino, precisamos reprimi-lo: os homens de nossa cultura inventaram sua "inocência" violentando, torturando e assassinando centenas de milhares de mulheres "incontroláveis". Como teria dito Adão: não fui eu, "foi a mulher que me deste por companheira".

Em 2016-17, em Paris, houve uma linda exposição da qual me chegou o catálogo: "Présumées Coupables", presumidas culpadas. Em tese, os humanos são inocentes até prova do contrário, mas as mulheres são CULPADAS até prova do contrário — pois, de partida, elas são a encarnação do mal.

A exposição de Paris propunha centenas de originais de processos contra mulheres — de Joana d'Arc até as criminosas célebres dos séculos 19 e 20. Desfilavam assim as figuras canônicas do desejo feminino culpado: a encantadora, a maléfica, a sedutora e, claro, a infanticida.

Moldados por um ódio plurimilenar ao desejo sexual feminino, que quisemos exorcizar e controlar pela maternidade, como teríamos legitimidade para opinar sobre a criminalização ou não do aborto? Por pudor, meus amigos, declarem-se impedidos.

Contardo Calligaris; Folha de São Paulo, 2. ago. 2018.

 

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