Módulo 56

 

GRODDECK E O ISSO




Georg Groddeck (...) está sempre a enfatizar que aquilo a que chamamos nosso Eu conduz-se, na vida, de modo essencialmente passivo, que somos, como diz, “vividos” por poderes desconhecidos e incontroláveis. Nós todos tivemos esta impressão, embora ela não nos tenha dominado a ponto de excluir as demais, e não hesitamos em atribuir à intuição de Groddeck um lugar no conjunto da ciência. (...)  O próprio Groddeck seguiu provavelmente o exemplo de Nietzsche, que com frequência utiliza esse termo gramatical[1] para o que em nós é impessoal e, digamos, necessário por natureza.

FREUD, Sigmund. O eu e o id. In: Obras Completas, Vol. 16. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 28 e 29.

 

         Nunca me cansarei de sublinhar um pequeno fato que esses supersticiosos não admitem de bom grado – a saber, que um pensamento só vem quando ‘ele quer’ e não quando ‘eu quero’; de modo que é um falseamento da realidade efetiva dizer: o sujeito ‘eu’ é a condição do predicado ‘penso’. Isso pensa: mas que este ‘isso’ seja precisamente o velho e decantado eu, é dito de maneira suave, apenas, uma suposição, uma afirmação não uma ‘certeza imediata’[2].

NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal § 17. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 23.

 

Devo dizer algumas palavras sobre uma expressão que criei para o meu uso próprio e que acrescentei ao vocabulário da observação psíquica, a palavra “Isso”. Essa expressão, com a qual não se designa e não pode se designar outra coisa senão a totalidade dos processos vivos em cada ser humano individual, a partir da concepção, é utilizada por Freud num outro sentido; ele emprega a palavra Isso (das Es) para designar a parte por enquanto desconhecida daquilo que é vivo, e opõe – o que é bem característico da sua forma de usar a palavra – o Isso ao Ego. O que ele faz é exatamente o contrário do que eu pretendo fazer com a palavra Isso; pois, para mim, o Eu ou Ego é uma das muitas formas de expressão do Isso. A consequência é que o meu O Livro d’Isso não foi compreendido por todos aqueles que adotaram a denominação posterior de Freud. Repetindo, eu entendo por Isso a totalidade do que é vivo num ser humano individual.

GRODDECK. Sobre os princípios da psicoterapia. In: Estudos psicanalíticos sobre psicossomática. São Paulo: Perspectiva, 2011. p. 174.

 

Groddeck, mais do que Freud, permanecia fiel a uma autoprodução do inconsciente na coextensão do homem e da natureza. É como se Freud tivesse recuado frente a este mundo de produção selvagem e de desejo explosivo, e quisesse introduzir aí, a qualquer custo, um pouco de ordem, a ordem clássica do velho teatro grego[3].

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Felix. O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: Ed. 34, 2010. p. 77.

 

“O Isso designa e não pode designar outra coisa senão a totalidade do vivo no ser individual, a partir de sua concepção.” G. Groddeck

(...) Com respeito à paternidade do vocábulo Isso, lembremos que foi Groddeck o primeiro a introduzi-lo na teoria; o próprio Freud reconheceu esse fato, ainda que perguntando (...) a Groddeck se, por acaso, ele não o teria retirado de Nietzsche[4].

Houve quem quisesse opor, como é natural, o Isso da teoria de Groddeck ao Isso da teoria freudiana, fazendo da autonomia do Eu o ponto central de suas divergências. Por esse ponto de vista, o Eu seria uma instância parcialmente autônoma em Freud, e integrada ao Isso em Groddeck. Na verdade, se adotarmos essa maneira de ver as coisas, logo perceberemos que as posições são menos distintas do que as aparências poderiam levar a crer. É claro que, para Freud, o Eu constitui uma instância separada do Isso. No entanto, um dos aspectos de sua teoria tende a fazer do Eu uma simples tendência adaptativa do Isso, visando a permitir uma inserção do sujeito na realidade. Ademais, um dos traços essenciais da segunda tópica foi tornar mais ricos e mais complexos os mecanismos de funcionamento do Eu. Este viu-se submetido a processos primários, ou seja, aos que funcionam dentro do Isso. E mais, o eu foi descrito como sendo a sede de resistências inconscientes. Por conseguinte, ele ocupa um lugar próximo ao ocupado pelo Isso na teoria de Groddeck, sobretudo quando este fala, a propósito das doenças, do caráter ardiloso do Isso e da necessidade de negociar com ele.

A rigor, a verdadeira oposição está em outro lugar, e a definição do Isso fornecida por Groddeck não deixa nenhuma dúvida a esse respeito. Para ele, o Isso não é uma instância psíquica. Eis aí um dado constante da teoria groddeckiana. Groddeck combateu até as últimas forças o lugar dominante atribuído à psique, bem como ao cérebro como lugar de produção do pensamento. É o Isso que cria o cérebro, dizia ele, e não o inverso. O Isso também não é o missing link, o elo faltante entre o corpo e o espírito, do qual falou Freud. É a força vital em sua acepção goetheana. O Isso groddeckiano não é o lugar do recalcado, mas antes a Natureza ou o Deus-Natureza de Goethe.

Vê-se perfeitamente que há aí mais do que uma simples divergência entre Freud e Groddeck, há uma oposição de base, uma diferença radical entre as duas concepções. O Isso, qual um mestre-de-obras, dirige a construção do organismo, a embriogênese, a morfogênese. Podemos representá-lo como uma espécie de código genético que guardasse em si a memória das duas células sexuadas que participaram de sua concepção. É que, para Groddeck, o Isso era fundamentalmente bissexual. Note-se, de passagem, que esse tema da bissexualidade também é encontrado com muita frequência em Freud.

NASIO, J.-D. Introdução às obras de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott. Rio de Janeiro: Zahar, 1995. p. 123 a 125.

 

Pode-se imaginar o processo de recuperação mais ou menos como uma reforma do organismo. O organismo individual tem no próprio inconsciente toda a mão-de-obra e geralmente também todo o material para realizar esta reforma. Se não realizá-la voluntariamente - o que costuma fazer de forma mais ou menos perfeita - isso é sinal de que há algum obstáculo paralisando as forças inconscientes. Talvez haja um muro que deva ser derrubado por fora, ou então montes de entulho que se acumularam e cabe removê-los; vez por outra, também falta material de construção; aí é preciso uma operação cirúrgica, tratamento pela física ou pela química. Talvez os operários do Isso sejam muito comodistas e tenham se habituado demasiadamente às condições reinantes onde se sentem bem, ou não se atrevam a iniciar o trabalho por subestimar suas capacidades. É quando estão em seus direitos a sugestão, a persuasão, a ordem. Mas também pode ser que uma proibição alheia, uma proibição de um governante anterior ou de um inquilino atual que têm seus contratos, pesem sobre o Isso, que o Isso de certo modo acredite estar preso a algum juramento ou que os seus dons característicos tenham sido desvirtuados pela educação e levados a utilizar uma técnica errônea. Se é assim, o melhor seria buscar das profundezas do passado remoto ou recente essa pretensa proibição, essa técnica errônea e apresentá-la ao Isso do homem para nova decisão. Esse é o procedimento da psicanálise, um método que tem a vantagem de reconhecer como fator determinante aquele que vai cuidar da reforma, portanto o Isso, e tratar com ele como se trata com um especialista.

GRODDECK, Georg. Condicionamento psíquico e tratamento de moléstias orgânicas pela psicanálise. In: Estudos psicanalíticos sobre psicossomática. São Paulo: Perspectiva, 2011. p. 27.

 

O mérito do tratamento analítico não reside no fato de ele, por tornar consciente o inconsciente, curar mais profundamente ou com mais segurança do que outros tratamentos (...), mas reside no fato de ser ele, muitas vezes o único meio de colocar em movimento de saúde o isso do homem nas profundezas.

GRODDECK, Georg. O homem e seu isso. São Paulo: Perspectiva, 1994. p. 182.

 

         Já que a qualidade principal do isso é a memória, principalmente a memória inconsciente, ele tende ao que chamamos de hábito; ele se acostuma, sob certas circunstâncias, a produzir as mesmas sensações. Tira, sem ter consciência disso, conclusões finais, como, por exemplo: agora que já experimentei três vezes (...), tenho de ficar muito tempo (...). Sensações de hábitos que, a cada vez, são produzidas nesta ou naquela circunstância, indiferentemente se são legítimas ou não: elas são “transferidas” de uma disposição anterior para uma nova situação. Pode-se dizer, dizer com muita certeza que, bem antes de terminar o terceiro ano de vida, a criança descobre tantas fontes de sensações e de todos os tipos que o homem só precisa transferir (...).

Esta capacidade de transferir bastante rapidamente e bastante injustamente para o bem e o mal, o isso utiliza em grande escala para resistência; transfere sentimentos, amizade e sentimentos de inimizade para o médico e, assim, estimula ou paralisa os seus esforços. Posto que a vida é constituída mais ou menos de transferências, o médico é obrigado, para não ser esmagado pela massa dos fenômenos, a escolher determinadas transferências e empregá-las no tratamento da resistência. A transferência principal que interessa no caso é a da mãe para o médico; depois, a do pai.

GRODDECK, Georg. O homem e seu isso. São Paulo: Perspectiva, 1994. p. p. 116 e 119, 151 e 152.

 

O objetivo de um tratamento, de todo tratamento médico, é conseguir alguma influência sobre o Isso. Em geral, costuma-se, com esse objetivo, tratar diretamente certos grupos de unidades-Isso; nos entregamos a essa operação com uma faca ou com substâncias químicas, com a luz e o ar, o calor e o frio, a corrente elétrica ou os raios. Ninguém pode tentar mais do que um método ou outro, cujas decorrências ninguém pode prever. (...) Como creio (...) que o Isso se deixa influenciar tanto pelo fato de tornar conscientes os complexos inconscientes do Eu quanto pelo ato de abrir uma barriga, não compreendo - ou não compreendo mais - como é possível imaginar que a psicanálise só é utilizável para os neuróticos e que as doenças orgânicas devem ser tratadas com outros métodos.

GRODDECK, Georg. O livro dIsso. São Paulo: Perspectiva, 2012. p. 226, 227 e 228.

 

O que separou Freud e Groddeck de imediato residiu na referência, permanente e constantemente reafirmada por Groddeck, a uma concepção monista, totalmente contrária à concepção dualista sustentada por Freud. (...) Groddeck voltou as costas a essa teorização dualista e afirmou sua oposição, muito antes de seu encontro com Freud e com a psicanálise. Seu posicionamento aparece já na primeira página das Conferências psicanalíticas para uso dos doentes, bem como no segundo capítulo do Livro do Isso e em sua primeira carta a Freud: “Corpo e alma são um todo. O ser humano não tem duas funções, não reconheço nenhuma doença do corpo”.

NASIO, J.-D. Introdução às obras de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott. Rio de Janeiro: Zahar, 1995. p. 116 e 119.

 

Uma criança de três anos fala de si na terceira pessoa, coloca-se ao lado de si mesma, age como se houvesse em sua pele uma personalidade alheia que é vivida por alguma outra coisa. A criança só entende o conceito e a palavra Eu depois, numa fase em que, há muito tempo, é capaz de pensar e agir de acordo com a razão. Nunca se deve perder de vista este fato fundamental. Ele dá a entender que o Eu ou Ego não passa de uma forma de manifestação, que é uma forma de expressão dIsso.

GRODDECK. Sobre o isso. In: Estudos psicanalíticos sobre psicossomática. São Paulo: Perspectiva, 2011. p. 29.

 

O Eu não é absolutamente o Eu; é uma forma constantemente mutante através da qual se manifesta o Isso e o sentimento do Eu é uma artimanha do Isso para desorientar o ser humano no que diz respeito ao conhecimento de si mesmo, para facilitar-lhe as mentiras que conta a si mesmo e fazer dele um instrumento mais dócil da vida. Eu! Com a estupidez que aumenta com nosso crescimento, acostumamo-nos a tal modo à ideia de autoimportância inspirada pelo Isso que nos esquecemos completamente do tempo em que enfrentávamos essa noção sem compreendê-la e quando falávamos de nós na terceira pessoa.

GRODDECK, Georg. O livro dIsso. São Paulo: Perspectiva, 2012. p. 223.

 

A linguagem possui uma palavra que diz eu, uma palavra que sempre ecoa em toda parte e que penetra e domina toda a nossa vida. E agora tentem compreender o que é porventura um eu. Tentem compreender esse eu, separá-lo, percebê-lo isoladamente. Os senhores verão que é impossível. Não existe nenhum eu, é uma mentira, uma desfiguração quando se diz: eu penso, eu vivo. Dever-se-ia dizer: isso pensa, isso vive. "Isso" quer dizer o grande mistério do mundo. Não existe um eu. A ciência há muito provou, mesmo às almas pedantes, desde que ela soube que esse eu é composto de milhões de eus menores; sim, cada dia produz uma nova prova científica do fato de o sangue que circula em nós ser um ente tão autônomo quanto o eu no qual ele circula, e de que o homem é tão dependente e tão indissolúvel do todo quanto o sangue o é do homem. A ciência prova diariamente ainda que cada órgão, o cérebro, o coração, cada glândula do corpo, cada célula é uma coisa com vontade própria e inteligência própria, mas que não passa de uma parte que é causada pelo todo e que atua sobre o todo. Tudo flui. Com toda a certeza não existe um eu. É um erro da linguagem e lamentavelmente um erro fatal. Porque ninguém é capaz de libertar-se dessa palavra "eu".

GRODDECK, Georg. Sobre a linguagem. In: Escritos psicanalíticos sobre literatura e arte. São Paulo: Perspectiva, 2001. p. 28 e 29.

 

O termo ego só adquire poder sobre o homem no terceiro ano de vida, mas não se pode negar que a criança pequena é um ser humano. Mas, tirando isso, todo momento nos ensina que a maior parte da nossa vida não tem a mínima coisa a ver com o ego; não é nosso ego que faz o coração bater no ritmo, não é o nosso ego que alimenta as células, não é o nosso ego que escolhe, entre as impressões dos sentidos, o que deve ser percepção, não é o nosso ego que cria as nossas doenças ou a nossa convalescença, não é o nosso ego que nos faz amar, odiar, dormir, acordar, mas alguma coisa de diferente faz tudo isso, algo de indefinido (...) que se pode chamar de isso justamente por causa dessa indeterminação.

GRODDECK, Georg. Destino e coação. In: O homem e seu isso. São Paulo: Perspectiva, 1994. p. 241.

 

O desejo de poder está ligado tão profundamente ao ser humano que, desde o dia em que Nietzsche encontrou a expressão para o fenômeno, ninguém mais tem condições de negar a força motriz como singularidade do ser humano. Tanto mais singular é o fato de o discípulo de Freud que fez do desejo de poder a base para sua atividade médica, Adler, ter-se detido na psicologia individual, uma vez que era preciso apenas uma pequena decisão para derrubar as barreiras que separavam psíquico e físico, espírito e corpo. A força das palavras herdadas é grande: Adler ficou preso à palavra ego. Justamente ele que se baseia em Nietzsche não precisava fazê-lo, pois foi Nietzsche quem estabeleceu, em lugar da inútil palavra eu, o termo indeterminado, mas útil, isso[5]. Certamente, tivesse Adler percebido a coesão indissolúvel de todo o humano com o isso, teria dado logo com a teoria de Freud sobre o poder do Eros[6].

GRODDECK, Georg. O cotidiano. In: O homem e seu isso. São Paulo: Perspectiva, 1994. p. 197.

 

O ego é uma máscara do isso.

GRODDECK. O cotidiano. In: O homem e seu isso. São Paulo: Perspectiva, 1994. p. 199.

 

Eu queria falar do eu e de sua diversidade. (...) Não é fácil fazer do Eu (...) uma ideia de conjunto. Em poucos minutos, ele vira e revira em nossa direção as diversas faces de sua superfície profundamente dividida e cintilante. Ora é um Eu surgido da infância; ora, um Eu dos vinte anos; às vezes é moral; às vezes, sexual e, outras vezes, é o Eu de um assassino. Num momento é cândido, no momento seguinte, impertinente; de manhã, é o Eu de um oficial ou de um funcionário, um Eu profissional; ao meio-dia, pode ser um Eu conjugal e à noite, o de um jogador, um sádico, um pensador. Se você levar em consideração que todos esses Eus - e poderíamos citar uma quantidade incalculável deles - coexistem no ser humano, pode ter uma ideia do poderio que o inconsciente representa no Eu.

GRODDECK, Georg. O livro dIsso. São Paulo: Perspectiva, 2012. p. 225 e 226.

 

O Isso (...) nos dá a consciência e a ilusão do "Eu", a moral e a repressão.  Pode-se contrastar o consciente e o inconsciente, mas não se pode jamais opor o Isso ao consciente; pode-se confrontar o Ego com o inconsciente ou os impulsos, mas jamais com o Isso, pois o Isso engloba consciente e inconsciente, o Ego e os impulsos, o corpo e a alma, o fisiológico e o psíquico; perante o Isso não há uma fronteira demarcando o físico e o psíquico. Ambos são manifestações do Isso, formas de apresentação.

GRODDECK, Georg. O Isso e a psicanálise. In: Estudos psicanalíticos sobre psicossomática. São Paulo: Perspectiva, 2011.  p. 118.

 

No decorrer da evolução, as células se unem para formar todo tipo de tecido - epiteliais, conjuntivos, substância nervosa etc. E cada uma dessas formações parece ser um novo Isso individual, que exerce uma ação sobre o Isso-coletivo, as unidades-Isso das células e os outros tecidos, ao mesmo tempo em que lhes atribui a tarefa de se dirigirem a si mesmas nas manifestações da vida. Mas isso ainda não basta. Novas formas-Isso se apresentam, agrupadas sob o aspecto de órgãos: baço, fígado, coração, rins, osso, músculos, cérebro, medula. E outras forças-Isso se comprimem dentro do sistema de órgãos. (...) Há um Isso da metade superior e outro da metade inferior do corpo, um outro da direita e da esquerda, um do pescoço e da mão, um dos espaços vazios do ser humano e um da superfície do seu corpo.

GRODDECK, Georg. O livro dIsso. São Paulo: Perspectiva, 2012. p. 209.

 

O fato do ser humano (...) viver no símbolo, podemos usá-lo, como se fosse um vidro colorido, para observar a vida humana. Decerto, uma tal maneira de observação nos aproxima tão pouco da verdade como se olhássemos por um vidro amarelo ou vermelho; ao contrário, numa tal tentativa, sabemos de antemão que o uso do pedaço de vidro colorido empresta ao mundo cores falsas, e assim o autor dessas observações sabe igualmente que, com seu método, tinge de maneira uniforme o mundo policrômico. No entanto, não é apenas uma brincadeira tola abordar problemas humanos dessa maneira; ao contrário, esse processo parece ser tão antigo quanto a tradição do passado humano.

         A primeira consequência da observação do mundo por esse meio é a desconfiança acerca da realidade. Presumivelmente o real existe; mas nunca chegamos a ter contato com ele. Nosso Isso muda o X desconhecido do real, influi nas coisas e transforma o real no verdadeiro. Obra e objeto não são a mesma coisa. O humano não trabalha com um "princípio da realidade" mas com o princípio de verdade. Se levarmos isso em conta, desaparece o contraste entre o Eu e o Isso, tem origem um mundo-homem no qual o Eu é apenas uma função do Isso. Esse mundo verdadeiro do ser humano se desintegra na tentativa de entender o real[7].

GRODDECK. Do isso. In: Escritos psicanalíticos sobre literatura e arte. São Paulo: Perspectiva, 2001. p. 228.

 

Podemos seguir o Isso desde a fecundação e retroceder mais ainda até a cadeia dos antepassados. Assim fica faltando a limitação temporal, porque, da mesma maneira que o começo, o fim também desaparece na imprecisa escuridão. De verdadeiros antagonismos, a vida e a morte transformam-se em conceitos elaborados arbitrariamente, porque ninguém é capaz de reconhecer quando o Isso deixa morrer ou faz viver. A delimitação espacial também não funciona para o Isso, que flui e se espalha nas imediações; não é possível determinar o ponto em que um pedaço de pão, um gole de água, um simples compasso de inspirar o ar, um objeto da visão, da audição, do olfato, do paladar e do tato passam a ser propriedade do Isso. As diferenças entre os sexos se diluem, o Isso humano é desde sempre homem e mulher, e mistura-se novamente na fecundação. A determinação de idade falha, pois nIsso há fatores de todas as fases etárias vividas, não só a partir da fecundação, mas desde o tempo dos bisavós. E por último, o que é mais importante na minha reflexão: a consciência do homem perde sua posição central, cede-a ao inconsciente, sem que se possa encontrar uma linha definida de demarcação.

GRODDECK. Sobre o isso. In: Estudos psicanalíticos sobre psicossomática. São Paulo: Perspectiva, 2011. p. 30.

 

Esta é uma reflexão sobre o Isso. Em vez da frase: eu vivo, ela defende a seguinte ideia: eu sou vivido por Isso.

GRODDECK. Sobre o isso. In: Estudos psicanalíticos sobre psicossomática. São Paulo: Perspectiva, 2011. p. 29.

 

O termo "inconsciente" não significa a mesma coisa que a palavra "isso". O que é inconsciente esteve por algum tempo na consciência; o inconsciente tem como pressuposto a existência do cérebro. Mas o isso já existe antes da formação do cérebro, o cérebro é uma ferramenta do isso, com a qual ele, por motivos desconhecidos, torna acessíveis ao nosso pensamento determinadas esferas de vida não demasiado grandes, mas ao mesmo tempo cuida para que esse cérebro nos iluda com todas as espécies de loucuras tipicamente humanas, como por exemplo, a crença no ego.  O isso e o inconsciente, repito, são dois conceitos totalmente diferentes: o inconsciente é uma parte da psique; a psique, uma parte do isso. (...) O isso é o próprio homem em todas as suas formas de vida e, como tal, é inacessível, tanto à psicanálise, quanto a qualquer outro método de investigação; mas, sem dúvida, existem caminhos que levam à proximidade do isso, e o melhor deles, o que chega mais perto possível da meta, é a psicanálise.

GRODDECK. O isso e a psicanálise. In: O homem e seu isso. São Paulo: Perspectiva, 1994. p. 191.

 

Veja bem: a palavra "isso" é moda; o assunto que está por trás dela não é, pode também nunca ser, vai contra a vaidade do ser humano, destrói a confiança no ego, e isso somente alguns poucos poderiam tolerar. E mesmo esses poucos apenas por algumas horas é que poderiam trabalhar com este terrível conceito. O isso está imperceptivelmente escondido atrás do ego, e castiga duramente aquele que ousa erguer o véu[8].

GRODDECK, Georg. Recalcar e curar. In: O homem e seu isso. São Paulo: Perspectiva, 1994. p. 177.    



[1] Es, pronome neutro em alemão, traduzível para o português pelo termo isso.  James Strechey verteu o Es para o inglês com o termo latino id, e desde então esta forma tem sido utilizada na literatura psicanalítica de maneira ampla e frequente.

[2] Nietzsche está se referindo criticamente ao “Cogito, ergo sum” (“Penso, logo existo”) de Descartes.

[3] O velho teatro grego cujo ponto culminante é a tragédia Édipo Rei, de Sófocles.

[4] Groddeck, por sua vez, reconhece em seus textos a inspiração nietzschiana do seu conceito de Isso.

[5] Groddeck reconhece a inspiração nietzschiana do seu conceito de “Isso”.

[6] Para Nietzsche, a “vontade de poder” é acima de tudo uma força criativa a serviço da vida, sua geração, conservação e expansão. O Eros freudiano apresenta características semelhantes.

[7] Considerar o quanto tal passagem antecipa o conceito de “Real” em Lacan e está inspirada no “perspectivismo” epistemológico de Nietzsche.

[8] Texto de 1926, bastante próximo da ideia de "ferida narcísica da humanidade" trazida por Freud em 1917, com Uma dificuldade no caminho da psicanálise.


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